PRÉ-HISTÓRIA DA REGIÃO CENTRO-OESTE DO BRASIL
Jorge Eremites de Oliveira
[1]
Sibeli Aparecida Viana [2]
RESUMO
Este artigo apresenta uma síntese sobre o transcurso das sociedades
indígenas pré-cabralinas na região Centro-Oeste do Brasil; ênfase
especial foi dada à pré-história pantaneira. Apesar de ser iminente
a necessidade da realização, retomada e revisão das pesquisas arqueológicas
em grande parte do Centro-Oeste, à luz de novos problemas e novas
perspectivas teórico-metodológicas, é possível dizer que o povoamento
humano da região teve início com o estabelecimento de grupos caçadores-coletores
em fins do Pleistoceno e início do Holoceno, por volta de 12.000
a 10.000 anos atrás. Nesse momento, a região apresentava uma situação
ambiental diferente da atual. Desde o início do Holoceno até uns
1.000 anos a.C., período em que muitas áreas tornaram-se ecologicamente
semelhantes em relação à sua atual configuração ambiental, grupos
caçadores-coletores, portadores de tecnologias distintas e sistemas
socioculturais complexos, ocuparam praticamente todo o Centro-Oeste.
No milênio anterior ao início da Era Cristã, alguns desses grupos
gradativamente desenvolveram ou adotaram técnicas de cultivo, geralmente
associadas à produção de recipientes cerâmicos. Em verdade, o Centro-Oeste
parece ter sido uma região de confluência para onde várias sociedades
indígenas, sobretudo as agricultoras e ceramistas, se deslocaram
por motivos variados. Assim, quando os europeus pisaram pela primeira
vez na América do Sul, parte considerável do Centro-Oeste brasileiro
apresentava-se com um extraordinário mosaico cultural. Porém, grande
parte das sociedades indígenas que ali viviam foram completamente
exterminadas ou assimiladas por povos de além-mar e seus sucessores
ibero-americanos. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, a conquista
das sociedades indígenas no Centro-Oeste, a exemplo das que atualmente
vivem em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ainda continua a passos
largos como parte um processo de barbárie contínuo e, aparentemente,
sem fim.
INTRODUÇÃO
O Centro-Oeste do Brasil possui uma área de 1.602.133 km2,
distribuídos entre os atuais Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul (ver Figura 1). Na região, o desenvolvimento de pesquisas
arqueológicas sistemáticas e contínuas teve início em Goiás, através
da execução de projetos de pesquisa junto à Universidade Católica
de Goiás (UCG) e à Universidade Federal de Goiás (UFG), respectivamente
em 1971 e 1974. Posteriormente, sobretudo a partir da década de
80, pesquisas desta natureza foram realizadas em Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul, em sua maioria por arqueólogos brasileiros vinculados
a instituições de ensino superior. Antes dos anos 70, porém, alguns
trabalhos podem ser enquadrados na categoria de pesquisas sistemáticas,
embora em geral tenham sido realizados em curto prazo e, também,
com o propósito de formar coleções ergológicas para museus sediados
no exterior; este é o caso dos trabalhos de Petrullo (1932) e Schmidt
(1914, 1940a, 1940b).
De início, tanto na UCG quanto na UFG, as pesquisas praticamente
seguiram as mesmas metodologias para o levantamento de sítios arqueológicos:
prospecções oportunísticas em áreas indicadoras de
sítios (abrigos sob rocha, margens de rios, tipos específicos
de vegetação etc.), onde a classificação ambiental teve papel destacado,
sendo interpretada como um fator determinante no processo cultural
de grupos pré-históricos
[3] . A cultura material, por seu turno, foi interpretada com o
objetivo de resgatar e compreender, através do método comparativo,
traços culturais; ênfase maior foi dada às semelhanças tecnológicas
para, a partir delas, serem criadas tipologias e seriações como
recursos para a definição de tradições e fases tecnológicas,
assim como para a explicação de migrações pré-cabralinas [4] . A reconstituição do passado arqueológico, portanto,
foi feita a partir de uma visão linear de cultura, na qual as diferenças
eram interpretadas como mecanismos de difusão e migração, sem necessariamente
implicar na compreensão dos processos culturais inerentes a eles.
Em fins da década de 70 e início dos 80, surge em Goiás um grande
número de projetos de pesquisa, todos tendo como um dos objetivos
principais a formação de um quadro geral sobre a ocupação humana
pré-colonial daquele Estado. Em Mato Grosso do Sul, projetos deste
tipo tiveram início na década de 80. A maioria desses projetos estava
distribuída em grandes áreas geográficas de aproximadamente 20.000
km2, as quais não chegaram a ser extensiva e exaustivamente
prospectadas. Este é o caso do Projeto Paranaíba e do Projeto
Alto Araguaia, respectivamente em Serranópolis e Caiapônia (Goiás),
bem como do Projeto Alto Sucuriú, no nordeste de Mato Grosso
do Sul. As intenções eram um tanto quanto pretensiosas e, não raras
vezes, os projetos não proporcionaram dados primários suficientes
a uma pesquisa de nível básico, ou seja, voltada às descrições,
classificações, tipologias e generalizações que constituem, em primeira
instância e segundo Schiffer (1988), os primeiros dados para atingir
pesquisas de nível médio ou alto. Por outro lado, é inegável a contribuição
desses projetos para o conhecimento da pré-história do Centro-Oeste,
uma vez que, mesmo com as ressalvas apontadas, as pesquisas conseguiram
produzir dados gerais sobre a ocupação pré-colonial da região, até
então praticamente desconhecida em termos arqueológicos (ver Tabela
2).
No caso específico do Pantanal, a maior planície inundável do
planeta e um dos últimos santuários ecológicos do mundo, durante
décadas seu passado arqueológico permaneceu despercebido no cenário
sul-americano. À exceção de algumas pesquisas realizadas na primeira
metade do século 20, praticamente nada foi feito até fins dos anos
80. No entanto, é indiscutível a importância dessa região para o
conhecimento da pré-história sul-americana, sobretudo pela sua posição
estratégica na porção central do continente, entre diversos ambientes
(Amazônia, Cerrado, Chaco e outros) dos quais tem recebido várias
influências do ponto de vista ambiental (ver Figura 2); a mesma
constatação é válida, em termos culturais e guardadas as devidas
proporções, para o passado arqueológico.
Somente a partir de 1990, com o efetivo início do Projeto Corumbá,
em Mato Grosso do Sul, o Pantanal foi definitivamente inserido nos
círculos de debates sobre problemas referentes à Arqueologia Platina.
Do ponto de vista teórico-metodológico, este projeto foi concebido
de modo semelhante ao Projeto Paranaíba e ao Projeto Alto
Araguaia, embora, em alguns aspectos e ao seu tempo, tenha sido
executado de maneira mais refinada. Não obstante os avanços no campo
das pesquisas sobre a pré-história pantaneira, muito ainda está
por ser feito considerando que a região possui uma área de cerca
de 140.000 km2, dos quais grande parte ainda não foi
sistematicamente prospectada e devidamente compreendida do ponto
de vista arqueológico.
Isto posto, é oportuno explicar que este artigo tem o propósito
de apresentar, a um público variado, uma síntese sobre a pré-história
do Centro-Oeste brasileiro. Como tal, foi pensado para ser o menos
incompleto possível; daí o destaque dado ao Pantanal. Ainda assim,
diante da complexidade e aridez do tema, é iminente o risco de sermos
demasiado informativos na abordagem da diversidade da cultura material,
inclusas aí questões adaptativas e socioculturais. Mais: aqui o
Centro-Oeste é entendido como uma delimitação geográfica mais didática
do que cultural, haja vista que no passado arqueológico não existiam
as atuais fronteiras político-territoriais de origem ibero-americana.
Por este motivo, tomamos a precaução de fazer uma digressão da pré-história
regional sem omitir as áreas adjacentes, as quais, para alguns casos,
extrapolam as atuais fronteiras nacionais. Finalmente, considerando
que as interpretações teóricas são momentâneas e que a Arqueologia
também é uma ciência acumulativa, é possível que muitas das idéias
aqui apresentadas sejam refutadas em um futuro não muito distante,
o que entendemos ser salutar para o desenvolvimento da Arqueologia
Brasileira.

FIGURA 1 Mapa do Brasil com destaque para a região Centro-Oeste
(MT, MS e GO).
O CENTRO-OESTE À EXCEÇÃO DO PANTANAL
OS CAÇADORES-COLETORES
Os grupos caçadores-coletores pré-coloniais estabeleceram-se em
paleopaisagens ¾ antigos ambientes com temperatura, umidade e precipitação
pluviométrica mais reduzidas do que atualmente ¾ localizadas, em
sua maioria, em regiões de planalto ou faixas de transição entre
a zona do planalto e a do alto Tocantins, em altitudes entre 700
e 800 m. Esta localização, no entanto, pode estar relacionada a
áreas mais prospectadas e não necessariamente representa uma preferência
de grupos humanos por esses ambientes. Isto porque, geralmente,
é difícil relacionar a localização dos sítios arqueológicos de grupos
pré-históricos à exploração de um único estrato vegetacional, haja
vista a necessidade de considerar não somente o local onde cada
sítio está situado, mas também toda a área possível de captação
de recursos, a qual pode compreender diferentes formações florísticas.
Entretanto, dados paleoambientais sugerem uma preferência por vegetações
abertas, entre as quais inclui-se o complexo sistema de áreas de
cerrado, fundamental no sistema de abastecimento dos grupos (Schmitz
1976-1977; Schmitz et al. 1986; Simonsen 1975).
Ao que tudo indica, as primeiras ocupações humanas do Centro-Oeste
estão vinculadas à presença de grupos caçadores-coletores que se
estabeleceram na região entre o final do Pleistoceno e o início
do Holoceno, entre 12.000 e 10.000 AP [5] . Existem, todavia, datas mais antigas, mas que, em sua quase totalidade,
ainda devem ser vistas com cautela. Este é o caso, apenas para exemplificar,
das datas mais antigas dos sítios Abrigo do Sol (19.400 ± 1.100
AP e 14.470 ± 140 AP) e Santa Elina (23.320 ± 1.000 AP e 22.500
± 500 AP), ambos em Mato Grosso, respectivamente estudados por Miller
(1983, 1987) e Vilhena-Vialou e Vialou (1994) (ver Tabela 1). A
bem da verdade, uma discussão detalhada sobre as origens do povoamento
humano do Centro-Oeste também passa por incluir esta questão na
pauta dos acirrados debates acerca do início do povoamento de outras
regiões do Brasil e das Américas, o que definitivamente não é o
propósito do presente artigo [6] .
Os estratos inferiores do sítio GO-NI-49, no alto Tocantins, estão
datados em torno de 10.750±300 AP; no mesmo período situam-se os
do sítio GO-JA-14, em Serranópolis, Goiás, com uma data de 10.740±75
AP. Ao analisar sedimentos do sítio GO-JA-01, também situado em
Serranópolis e com uma data de 10.580±115 AP, Schmitz (1980) aponta
a existência de mudanças climáticas que indicam alternâncias entre
períodos mais secos e mais úmidos, entre 10.500 e 7.250 AP. Posteriormente
a esse momento, foi observado outro tipo de variação climática holocênica,
entre 6.500 e 4.000 AP, para o qual é registrada uma expansão das
vegetações de cerrado e mata [7] . Em Mato Grosso, caçadores-coletores estão representados
por grupos portadores do Complexo Dourado, os quais ocuparam
o vale do Guaporé entre 8.930 e 10.600 AP; também estão representados
pelos grupos que ocuparam os sítios Santa Elina, em Cuiabá, e Morro
da Janela, em Rondonópolis, respectivamente datados em 10.120 AP
e 10.080 ± 80 AP (cf. Miller 1983, 1987; Villhena-Vialou e Vialou
1989, 1994; Wüst e Vaz 1998). Para o nordeste de Mato Grosso do
Sul, região do alto Sucuriú, há uma data de 10.340 ± 110 AP para
caçadores-coletores portadores da Tradição Itaparica (Beber
1994; Veroneze 1993); Goiás também está representado por esta tradição:
no sudoeste há datas entre 11.000 e 9.000 AP, embora para o leste,
bacia do Paranã, não haja quaisquer datações absolutas (Schmitz
1976-1977; Simonsen 1975).
Em fins da década de 60, a Tradição Itaparica foi inicialmente
definida; instrumentos denominados lesmas (artefatos plano-convexos)
foram estabelecidos como fósseis-guias; sua distribuição
espacial abrange desde os Estados da região Nordeste até o sudeste
de Mato Grosso. Em outro período, um pouco mais tardio, entre aproximadamente
9.000 e 7.000 AP, o clima tornou-se mais quente e úmido proporcionando
a expansão da vegetação de mata; relacionados a este contexto climático
há registros de novos grupos caçadores-coletores, representados
pela Tradição Serranópolis, entre 9.020±70 e 6.690±90 AP
(Schmitz et al. 1989). Em Goiás, esses grupos ocuparam várias regiões:
vale do Paranaíba, alto Araguaia, alto e baixo Paranã, afluentes
dos rios das Almas e Caiapó. Em Mato Grosso, há evidências de grupos
portadores da Tradição Serranópolis na Chapada dos Parecis.
As origens desses grupos não estão claras; podem representar uma
adaptação dos antigos caçadores-coletores, os portadores da Tradição
Itaparica, a um novo ambiente e/ou representar a migração de
novos grupos, dos portadores da Tradição Serranópolis, para
o Centro-Oeste (Schmitz 1980). Também não está claro o período final
de sua ocupação; acredita-se que grupos caçadores-coletores tenham
ali permanecido até a vinda dos agricultores ou mesmo que tenham
desenvolvido técnicas de cultivo na região. Sobre este assunto,
Wüst (1990), ao constatar mudanças no padrão de assentamento, implantação
e morfologia dos sítios existentes na região do rio Vermelho, considera
a possibilidade de os grupos caçadores-coletores mais recentes terem
participado de um processo de transição no qual, primeiramente,
teriam adotado a prática do cultivo e, posteriormente, a produção
de cerâmica, a da Tradição Una.
A maioria dos sítios de caçadores-coletores antigos, ao menos
os até agora localizados, encontra-se em ambientes fechados: abrigos
sob rocha em arenito e quartzito e grutas localizadas em maciços
calcários com níveis que atingem até 3 m de profundidade e de 100
a 1.500 m2 de extensão (Schmitz et al. 1978-1980; Schmitz
1980). Ao que tudo indica, os caçadores-coletores estariam organizados
em pequenos grupos, compostos provavelmente por algumas famílias,
as quais tinham grande mobilidade espacial em um território imprecisamente
demarcado (Schmitz 1984) [8] . Na região goiana de Caiapônia, especificamente nas
áreas dos rios do Peixe e Vermelho, embora haja registros de sítios
a céu aberto, seu número é reduzido; geralmente estão relacionados
à exploração de matérias-primas. Para abrigos existentes na região
de Serranópolis, Schmitz (1980) interpreta as camadas menos espessas
e a concentração de materiais em determinados pontos como indicadores
de baixa densidade populacional. A maioria destas idéias, ao contrário
de sugerirem um padrão de implantação para os sítios, atestam o
uso de prospecções voltadas para o estudo de basicamente um único
tipo de ambiente, o fechado.
A busca de explanações mais amplas, que levem em conta a dinâmica
do sistema de assentamentos, também passa pela descoberta e correlação
das diversas classes de sítios, os quais também estão localizados
em ambientes abertos e devem ser devidamente investigados, ainda
que isso exija um maior gasto de energia por parte dos pesquisadores,
conforme enfatiza Kipnis (1998). Ademais, escavações limitadas a
um ou dois cortes estratigráficos do tipo cabina telefônica
também limitam a obtenção de dados referentes ao tamanho, estrutura
dos assentamentos e informações sobre a densidade de material e
deslocamentos periódicos de abastecimento. Esta ausência de dados
impossibilita explanações mais específicas relacionadas à demografia,
natureza dos sítios e possibilidades de contatos extra-culturais.
Ainda que vagas, as primeiras informações nesta direção apresentam
uma classificação de sítios arqueológicos, com destaque o sítio
GO-CB-01, de atividade limitada e caracterizado como oficina de
lascamento (Simonsen 1975). Os sítios superficiais da área Centro-Sul
de Goiás também estão correlacionados à exploração de matérias-primas
(Andreatta 1985); no leste, bacia do Paranã, além da região de Caiapônia,
há menção de sítios superficiais de exploração de matéria-prima
que podem estar relacionados ao período de dispersão dos grupos
em função da seca, indicativo de uma época de escassez de produtos
alimentares (Souza et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1986, 1989).
Em Mato Grosso, região dos rios do Peixe e das Garças, há registro
de sítios a céu aberto e em ambientes fechados, ainda sem uma análise
funcional desses assentamentos. Na região do rio Vermelho, Wüst
(1990), ao trabalhar com três sítios de caçadores-coletores, classificou-os
em dois tipos: sítios habitação e acampamentos temporários.
Quanto ao sistema de subsistência, é provável que os primeiros
caçadores-coletores tenham utilizado técnicas de forrageamento na
exploração de plantas e animais disponíveis em uma área. Esta idéia
deve ser interpretada com cautela, pois, como explica Bird-David
(1995), elementos como contatos extra-grupais, diversidade e flexibilidade
econômicas devem ser considerados, uma vez que colocam em questionamento
a ênfase dada à caça e à falta de recursos. Baseando-se nos remanescentes
arqueológicos encontrados em Goiás, Schmitz et al. (1978-1980) e
Schmitz (1980) consideram que a subsistência dos grupos baseava-se
principalmente na caça generalizada. Este modelo foi recentemente
questionado por Kipnis (1998), a partir de pesquisas realizadas
no vale do Peruaçu, Minas Gerais; seus estudos revelam uma economia
caçadora-coletora estruturada basicamente em produtos de coleta
vegetal, haja vista que, conforme Neves et al. (1996), a alta incidência
de cáries nos indivíduos indica uma dieta rica em carboidratos.
Tanto a confirmação quanto a refutação desses modelos passam por
um maior número de pesquisas extensivas, acompanhadas de grande
detalhamento arqueológico e maior refinamento de dados paleoambientais.
Schmitz (1980) apresenta hipóteses sobre a utilização anual de
abrigos na região de Serranópolis; sua idéia sustenta-se na diversidade
de recursos, na preservação de materiais desta natureza no contexto
estratigráfico dos sítios e na ausência ou raridade de sítios em
ambientes abertos. Outra hipótese baseia-se em duas questões: a)
impossibilidade de se ter, em todos os ciclos estacionais, recursos
de subsistência nas proximidades dos assentamentos; b) limitação
da produção de alimentos, o que muitas vezes favoreceu deslocamentos
planejados como forma de garantir a sobrevivência da população (Schmitz
1984). Seguindo este raciocínio, Schmitz et al. (1989) propõem um
modelo de assentamentos baseado na disponibilidade de recursos alimentares:
os tempos de chuva representariam maior abundância de alimentos
vegetais, obtidos através da coleta, o que garantiria a concentração
dos caçadores-coletores em abrigos; em períodos secos, recorreriam
a uma maior dispersão populacional, acampando a céu aberto ou em
pequeníssimos abrigos, a exemplo dos existentes em Caiapônia e no
alto Araguaia.
A subsistência dos grupos relacionados à Tradição Serranópolis,
embora também esteja baseada em atividades de caça e coleta generalizadas,
também está voltada para o consumo de moluscos terrestres, encontrados
em grande quantidade face às novas condições climáticas holocênicas
no interior do continente (Schmitz 1984). Contudo, a ênfase dada
à utilização de moluscos na dieta alimentar deve ser vista com cautela,
pois há possibilidade deles também estarem nas camadas estratigráficas
por ação natural ou que tenham sido transportados por outros animais.
Isto porque, com base em uma dieta alimentar estruturada no consumo
de gastrópodes terrestres e fluviais, foi elaborado um modelo que
considera o aumento da umidade como fundamental na multiplicação
desses moluscos, o que, por conseguinte, teria levado os grupos
caçadores-coletores a diversificarem sua dieta alimentar (ver Barbosa
1981-1984).
Sobre o sistema tecnológico dos grupos caçadores-coletores, de
acordo com Fogaça (1991), muitos dos estudos realizados não tiveram
a preocupação, por exemplo, com dados referentes a elementos envolvidos
em uma cadeia operatória de elaboração do instrumento, estratégias
de obtenção de matérias-primas, técnicas de lascamento, entre outros.
Apesar disso, sabe-se que a tecnologia desses caçadores-coletores
era simples e, com base nos materiais preservados, percebe-se o
predomínio de instrumentos líticos e, em menor escala, ósseos; é
também provável que tenham utilizado peles e tendões de mamíferos,
penas de aves, madeira etc. No entanto, devido provavelmente à má
preservação desses materiais, pouco restou como testemunho material.
A indústria lítica do Complexo Dourado, por exemplo, é
caracterizada por lascas de percussão dura, ocasionalmente apresentando
trabalho secundário por pressão; dentre os instrumentos, foram encontrados
lâminas de bifaces e diversos tipos de raspadores (Miller 1987).
Na Tradição Itaparica, os artefatos de material ósseo estão
representados por espátulas feitas a partir de restos de cervídeos
e outros mamíferos. A matéria-prima para a confecção dos artefatos
líticos e sua localização está ligada à disponibilidade local (arenito
silicificado, quartzito e outros), já que foram encontrados nos
alcantilados dos próprios abrigos ocupados (Souza et al. 1981-1982;
Schmitz et al. 1989). A caracterização desta indústria lítica é
enfatizada pela pouca quantidade de pontas líticas. Esta idéia levou
à hipótese de que existiria no Brasil, mais precisamente nas regiões
Centro-Oeste e Nordeste, um horizonte Paleoíndio com ausência, ou
pouca quantidade, de pontas de projéteis; outro horizonte, com maior
quantidade dessas pontas, estaria localizado no planalto meridional
(Schmitz 1978-1980). Hoje em dia, com o desenvolvimento de novas
pesquisas, esta tese vem se tornando cada vez mais insustentável:
pontas de projéteis em sílex e quartzo foram encontradas na bacia
do Paranã (Souza et al. 1981-1982; D. Martins 1998); para o sítio
GO-JA-01, localizado em Serranópolis, Schmitz et al. (1989) mencionam
uma ponta de projétil com armação de osso; no planalto de Maracaju
e região do alto Paraná, em Mato Grosso do Sul, também foram encontradas
pontas de projéteis (G. Martins 1996; Kashimoto 1997). Outros instrumentos
podem ser destacados; todos foram confeccionados por percussão direta,
a partir do uso de percutores duros, percutores pequenos discoidais,
além de instrumentos alisados e picoteados; os artefatos mais freqüentes
são os unifaciais que, de um modo geral, apresentam uma face plana,
não-trabalhada, e outra convexa, transformada: faca unilateral e
bilateral, furadores, buris, raspadores de bico plano-convexo, raspadores
terminais plano-convexos, bifaces, bicos, picões, grandes raspadores,
lâminas de machado lascadas, instrumentos bifaciais (Simonsen 1975;
Schmitz et al. 1982; Schmitz 1984). Enfim, a discussão em torno
da existência ou não de um horizonte Paleoíndio no Centro-Oeste,
assim como em outras regiões do Brasil, ainda é motivo de muitas
controvérsias, conforme enfocou Schmitz (1999a) em recente artigo.
Na Tradição Serranópolis, a tecnologia de instrumentos
líticos é sensivelmente modificada, caracterizada por uma indústria
lítica tecno-morfologicamente mais simples. Portanto, não está mais
enquadrada no esquema tipológico proposto para a tradição anterior.
O desaparecimento dos instrumentos anteriores é interpretado pelas
modificações das variáveis ambientais do Altithermal, que
exigiria, segundo Barbosa (1981-1982), um novo modo de adaptação
tecnológica; esta idéia vale-se de um determinismo ambiental para
explicar uma dinâmica sociocultural complexa. Neste período, não
são mais observados os bem elaborados artefatos laminares, que passam
a ser substituídos por lascas, usadas predominantemente sem qualquer
retoque; ressalta-se novamente a raridade das pontas. Outros artefatos
são destacados: goivas; bicos raspadores, pequenos laterais e terminais;
perfuradores; pontas de entalhe; cunhas; plainas; buris; talhadores;
formões; quebra-cocos etc. As espátulas de ossos também desapareceram,
surgindo alguns anzóis e artefatos feitos a partir de carapaças
de moluscos (Barbosa 1981-1982).
A hipótese de continuidade, dos caçadores-coletores tardios aos
agricultores e ceramistas portadores da Tradição Una, já
mencionada anteriormente e observada através de sucessões estratigráficas,
é constatada apenas em algumas áreas do Centro-Oeste: alto Araguaia
e bacia do rio Vermelho (Wüst 1990). Certas características presentes
entre os grupos caçadores-coletores mais recentes corroboram esta
hipótese, pois representam elementos de transição de grupos caçadores-coletores
para agricultores: implantação em áreas de mata/cerrado, acesso
a recursos mais diversificados e solos melhores e mais propícios
ao cultivo. Moreira (1981-1984), baseando-se nos dados de um único
corte estratigráfico feito no sítio GO-JA-01, explica que o declínio
dos produtos alimentares de origem animal pode estar relacionado
com o consumo dos produtos cultivados, os quais gradualmente teriam
favorecido um aumento do tamanho dos assentamentos.
Há ainda alguns aspectos sociais e ideológicos que merecem um
breve destaque. Observa-se que os mais antigos esqueletos humanos
do Centro-Oeste, provenientes de escavações controladas, são de
grupos caçadores-coletores da região de Serranópolis. Ali, os enterramentos
são primários: mortos eram enterrados em posição fletida, deitados
sobre um dos lados e podiam ter o corpo coberto por blocos de pedras.
Há dados de enterramentos de indivíduos adultos e, em menor proporção,
de crianças; atestou-se ainda a presença de acompanhamentos funerários,
como um conjunto de contas vegetais, sobre o corpo de uma criança
e de um jovem pertencentes a caçadores-coletores mais recentes.
OS AGRICULTORES E CERAMISTAS: ASPECTOS GERAIS
No Centro-Oeste, à exceção do Pantanal e adjacências, a presença
de grupos agricultores e ceramistas está caracterizada, até onde
sabemos, por cinco tradições: Una, Aratu [9] , Uru, Tupiguarani, Bororo
e Inciso Ponteada. Outras tradições, porém, podem existir,
mas não foram detectadas até o presente momento. Este pode ser o
caso das regiões do planalto de Maracaju-Campo Grande, planalto
da Bodoquena e bacia do Paraná, em Mato Grosso do Sul, onde as pesquisas
em grande parte iniciaram-se nos anos 90 e, por conseguinte, muitas
áreas ainda não foram extensiva e intensivamente prospectadas.
Estudos recentes, como os de González (1996a, 1996b), baseados
não somente em fatores geográficos, consideram grande parte da região
Centro-Oeste como uma área de confluência para onde grupos ceramistas
de regiões distintas se teriam deslocado. Dentre esses grupos, deve-se
mencionar os portadores da Tradição Tupiguarani, comumente
correlacionados a grupos lingüisticamente Tupi-Guarani, originários
da Amazônia, que, ao atingirem o Centro-Oeste favoreceram a existência
de uma situação de pressão diante de outros grupos já estabelecidos
na região (ver Brochado 1984, 1989; González 1996a) [10] . Esta situação é observada em alguns
fenômenos de sítios arqueológicos em Goiás e Mato Grosso, entre
os quais pode ser destacada a pouca ocorrência dos sítios tipicamente
Tupiguarani em relação aos assentamentos que apresentam elementos
de fusão e/ou empréstimo de unidades socioculturais diversas, isto
é, sítios multicomponenciais. Há ainda a ocupação ocasional do topo
de elevados morros que indicam estratégias defensivas (Wüst e Vaz
1998). Interpretações sobre os deslocamentos dos Tupi, de caráter
difusionista, consideram que o planalto central estaria cercado
por rotas de grupos Guarani e Tupinambá, representantes da Tradição
Policrômica da Amazônia, da qual se teria originado a Tradição
Tupiguarani (Brochado 1984, 1989). Esses grupos se teriam deslocado,
respectivamente, em direção norte-sul e nordeste, descendo pela
faixa litorânea até o atual Estado de São Paulo. Há ainda a possibilidade
de um outro deslocamento a partir do noroeste da Amazônia, dirigindo-se
no sentido centro-sul e sudeste (Susnik 1975). Finalmente, a região
do vale do São Lourenço representaria uma outra área de pressão
dos portadores da Tradição Tupiguarani no Centro-Oeste.
Dentre as ocupações ceramistas mais antigas, merecem destaque
as relacionadas aos grupos portadores da Tradição Una, no
sudoeste goiano e na bacia do Paranã, com datações em torno de 1.000
AP (Souza et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1989) [11] . Em Mato Grosso, a ocupação ceramista
mais antiga está representada pelos sítios Ferraz Egreja e MT-SL-72,
ambos localizados em Rondonópolis e com datas em torno de 2.000
AP (Vilhena-Vialou e Vialou 1994; Wüst e Vaz 1998).
Segundo González (1996a), as datações disponíveis para os grupos
da Tradição Una apontam dois momentos distintos de ocupação:
um, dos últimos séculos a.C. até o início da Era Cristã (alto Araguaia
e médio Tocantins); outro, em um período mais recente, de 720 a
1.210 d.C. (Tocantins, vale do rio Vermelho e baixo Paranaíba).
Esta tradição também está presente em diversas regiões circunvizinhas:
Bahia, Tocantins e norte e sul de Minas Gerais (Schmitz e Barbosa
1985).
Em períodos mais recentes e, por conseguinte, com características
ambientais peculiares, iniciaram-se as ocupações dos grupos portadores
da Tradição Aratu, os quais foram parcialmente contemporâneos
dos da Tradição Una. Os grupos portadores dessas duas tradições
ceramistas, juntamente com os portadores das tradições Uru e
Tupiguarani e grupos do alto Xingu, são genericamente caracterizados
como grupos das grandes aldeias.
A Tradição Aratu localiza-se desde o litoral de Pernambuco,
Bahia e Espírito Santo até o interflúvio dos rios Araguaia e Tocantins
e, no sul, até o rio Paranaíba (Wüst 1990). Em Goiás e Mato Grosso
esta tradição está representada principalmente nas seguintes regiões:
partes central e oriental de Mato Grosso Goiano, altos afluentes
do Tocantins, Paranaíba e Araguaia; regiões dos rios Uru e Corumbá
(em Goiás); bacia do Paranã e município de Orizona [12] . O momento mais antigo apresenta datas
ao redor do século 9 da Era Cristã, entrando em colapso muito antes
do início da Conquista Ibérica.
A Tradição Uru, cujas origens podem estar relacionadas
ao grupos do alto Xingu (Irmhild Wüst, comunicação pessoal, 1999),
ocorre desde o vale do Araguaia até o sudeste de Mato Grosso, além
de sítios localizados na bacia do alto Tocantins. Quanto às datações,
em Mato Grosso são do século 8 d.C., enquanto em Goiás a data mais
antiga é do século 12 d.C. Há hipóteses de que a Tradição Uru
tenha chegado até o início da Conquista, podendo alguns sítios
mais recentes estarem associados aos índios Karajá (Wüst 1975).
Os sítios Bororo localizam-se em Mato Grosso (alto e médio Vermelho)
e estão correlacionados a uma fusão de diversas matrizes e culturas
étnicas, entre elas as dos grupos portadores das tradições Uru
e Tupiguarani (Wüst 1990). Na região do alto Xingu, pode
ser destacado o material da lagoa de Miararré, classificado como
pertencente a grupos da Tradição Inciso Ponteada da bacia
do Amazonas e relacionado às grandes aldeias estudadas por Henckenberger
(1998), Becquelin (1993) e Simões (1967), cujas datações mais antigas
são do século 11 d.C.
OS AGRICULTORES E CERAMISTAS: ASSENTAMENTOS, SUBSISTÊNCIA,
TECNOLOGIA E ASPECTOS SOCIAIS E IDEOLÓGICOS
A respeito da implantação de sítios dos grupos agricultores e
ceramistas na paisagem, dados apontam que os portadores da Tradição
Una estabeleceram-se em ambientes de relevo acidentado, com
predomínio de áreas de cerrado, e ocuparam as camadas mais superficiais
de grutas e abrigos rochosos, às vezes os mesmos utilizados pelos
antigos caçadores-coletores. Há também registros de ocupações em
áreas abertas, nas cercanias do rio Claro, próximo a Jataí, além
de outros sítios existentes na bacia do Paranã. No entanto, observa-se
que as idéias apresentadas também não consideram as áreas de entorno
dos assentamentos, as quais, como já frisamos anteriormente, estão
relacionadas à captação de recursos alimentares e matéria-prima.
O desenvolvimento do cultivo, bem como da tecnologia de produção
de artefatos cerâmicos, contribuiu para o adensamento dos grupos
pré-coloniais na região.
Em relação às demais tradições, o número de sítios da Tradição
Una é bastante reduzido em relação ao total de sítios ceramistas
registrados no Centro-Oeste. Assim como em outros casos, esta situação
também pode ser explicada pela baixa visibilidade dos sítios em
áreas de florestas e a adoção de prospecções oportunísticas
no levantamento arqueológico (González 1996a). A localização dos
sítios em ambientes fechados, os estratos arqueológicos pouco espessos
e o material neles encontrado levaram os pesquisadores à apresentação
de diferentes interpretações sobre a função desses assentamentos:
cerimonial (Simonsen et al. 1983-1984); habitação semi-permanente
(Schmitz e Barbosa 1985); habitação (Schmitz et al. 1986); de função
não-residencial (Wüst 1990).
No que diz respeito aos sistemas de subsistência, os grupos da
Tradição Una mantiveram uma agricultura incipiente iniciada
por caçadores-coletores tardios (Wüst 1983). No sudeste de Mato
Grosso, este período de transição, de caçadores-coletores para agricultores,
é atestado por práticas agrícolas em um contexto acerâmico, também
indicado pela mudança no padrão de assentamento; um exemplo é o
sítio MT-SL-37, com uma data de 2.570±70 AP. Ademais, outras características
dos sítios ¾ localização em áreas de transição entre mata e cerrado,
morfologia, presença de solos argilosos e a esporádica ocorrência
de artefatos cerâmicos e líticos polidos em sua superfície ¾ indicam
ser de caçadores-coletores em transição para a agricultura. No sudoeste
de Goiás, alguns sítios indicam que esses grupos cultivaram diversas
plantas (milhos, cucurbitáceas, amendoim etc.) e, em escala considerável,
mantiveram ainda atividades de coleta de vegetais, apanha de moluscos
e caça de animais, em complementação à sua dieta alimentar (Schmitz
1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985) [13] .
Na cerâmica da Tradição Una há recipientes pequenos, de
contorno simples ou infletido, cor escura, forma de pratos rasos,
tigelas e pequenas panelas com engobo branco ou vermelho e raras
decorações dos tipos inciso e ponteado; a espessura das paredes
varia entre 0,3 e 1 cm; o antiplástico predominante é mineral e,
em menor proporção, cariapé e partículas brancas de origem animal,
ainda não identificadas (Wüst e Schmitz 1975).
Posteriormente, aproximadamente no século 9 a.C., a região é ocupada
por grupos numerosos, os da Tradição Aratu, que construíram
grandes aldeias anulares. Os sítios desses grupos, por sua vez,
localizam-se em ambientes abertos, de relevo ondulado suave a forte,
geralmente em ambientes de mata e raramente nos de cerrado; não
há registros de ocupações em abrigos para estes grupos. Em sítios
da bacia do Paranã há registros de sepultamentos localizados em
grutas próximas às aldeias, estas últimas situadas a céu aberto
(Simonsen et al. 1983-1984).
Estudos mais recentes, também preocupados com a espacialidade dos
sítios na paisagem e com o sistema de assentamento, interpretam
o padrão ocupacional dos grupos ceramistas como um sistema amplo,
ao qual estão vinculadas várias classes específicas de sítios (ver
Wüst 1983, 1990; Mello et al. 1996). Exemplo disso são as investigações
realizadas na região goiana de Corumbá, feitas por Mello et al.
(1996), que localizaram sítios de grupos portadores da Tradição
Aratu nas proximidades de rios de porte médio a grande, como
é o caso do rio Corumbá (GO). Até há pouco tempo, a literatura arqueológica
regional explicava a adaptação desses grupos basicamente a regiões
de rios perenes e áreas de cabeceiras dos rios (Schmitz et al. 1981-1982;
Schmitz et al. 1982).
Outrossim, as primeiras pesquisas no Centro-Oeste vinculam a ocupação
dos grupos ceramistas das grandes aldeias a ambientes de
solos propícios à agricultura, uma vez que sua dieta alimentar estava
baseada em produtos cultivados. Todavia, pesquisas incluindo análises
de solo e a implantação dos sítios na paisagem têm demonstrado que
nem sempre os sítios ocorrem nesses locais. Atualmente, há o entendimento
de que o deslocamento dos assentamentos não está necessariamente
relacionado ao esgotamento de solos, o que implica em explicações
alternativas para a mobilidade espacial dos grupos (Wüst 1983).
Com efeito, as abordagens mais recentes, ao considerarem a complexidade
dos ecossistemas existentes no Centro-Oeste e, principalmente, as
diferenciações socioculturais dos grupos agricultores que ali se
estabeleceram, tendem a adicionar aos elementos ambientais (solo,
relevo, vegetação, fauna etc.) dados relacionados à disponibilidade
e ao potencial dos recursos de uma determinada área; consideram
que seu aproveitamento segue processos de decisões estabelecidos
por padrões socioculturais, nos quais o equipamento tecnológico
e o contingente populacional constituem elementos que também devem
ser levados em conta (Wüst 1983).
Para os grupos da Tradição Aratu, que ocuparam ambientes
abertos, verificam-se grandes aldeias localizadas sobre encostas
suaves de colinas nas proximidades de cursos dágua de porte
variado. As aldeias, formadas por diversas concentrações de refugo,
principalmente cerâmico, apresentam-se nas formas circular, oval
ou em ferradura, em áreas que variavam de 13.000 m2 a
345.000 m2, formadas por dois ou três anéis concêntricos,
sendo o interno o mais antigo (Silva et al. 1997; Wüst e Barreto
1999) [14] . Baseando-se nas áreas dos sítios grandes e pequenos,
Wüst (1983) e Mello et al. (1996) supõem que o contingente demográfico
seria em torno de 150 a 2.000 pessoas, segundo dados referentes
às regiões de Sanclerlândia e do rio Corumbá, em Goiás. Também estão
presentes sítios pequenos, constituídos por uma única mancha.
Há várias interpretações sobre as diferenças de tamanho dos sítios:
a) são contemporâneos e as aldeias grandes representam sítios de
habitação, enquanto os menores estão relacionados a sítios de exploração
específica, ocupados por algumas pessoas do grupo maior e por um
determinado período, modelo este proposto para grupos da Tradição
Aratu na região de Corumbá, em Goiás, e Mato Grosso Goiano (Wüst
1983; Mello et al. 1996); b) sítios de habitação pequenos representam
um mecanismo de defesa, cisões grupais, contra as incursões dos
primeiros colonizadores e/ou mesmo declínio populacional ou contato
com outros grupos étnicos (Wüst 1983; Mello et al. 1996); c) as
diferenças no tamanho dos sítios também podem indicar hierarquias
entre aldeias, relacionadas a uma centralização política (Wüst e
Carvalho 1996).
Na região de Mato Grosso Goiano, há registros de sítios de habitação,
localizados no alto de colinas, sem características de assentamentos
de exploração de matéria-prima ou de produtos alimentares, mas com
conotação defensiva; sua posição estratégica no relevo também poderia
representar a demarcação de território (Wüst 1983, 1990). Os depósitos
arqueológicos com até 30 cm de espessura indicam uma relativamente
curta duração ocupacional, ao passo que os de até 60 cm indicam
uma permanência estimada de duas a três gerações. Com base nesses
dados, Wüst (1983) avalia que na região Centro-Oeste o ambiente
não foi determinante no tempo de permanência no sítio. Também de
conotação defensiva destacam-se as grandes aldeias do alto Xingu,
as quais apresentam estradas e valetas que contornam a periferia
de algumas das aldeias pré-históricas da região (Heckenberger 1998).
O principal sustento dos grupos da Tradição Aratu esteve
em produtos agrícolas, com destaque para milhos, feijões e tubérculos,
embora com a ausência de mandioca amarga (Schmitz 1976-1977; Schmitz
e Barbosa 1985). A presença de sítios de atividades limitadas pode,
também, estar relacionada à existência de roças mais distantes da
aldeia principal, bem como à exploração de produtos obtidos através
das atividades de caça e coleta. Ressalta-se que dados sobre a função
dos sítios devem estar acompanhados da análise da implantação dos
assentamentos no ambiente, sua localização diante da compartimentação
fitogeográfica da área, densidade do refugo e aspectos morfológicos
do sítio (Wüst 1983).
Sobre a tecnologia dos grupos ceramistas que ocuparam o Centro-Oeste
brasileiro, a inter-relação dos diversos elementos apontados, como
o cultivo de plantas e o crescimento populacional, exigiu novos
acréscimos ao sistema tecnológico então conhecido. A manipulação
da argila para a confecção de recipientes cerâmicos é um exemplo
desta nova realidade. No que diz respeito à indústria lítica, percebem-se
vários acréscimos necessários à prática da agricultura, sobretudo
a utilização da técnica de polimento e o surgimento de novos instrumentos
(Schmitz et al. 1986). Entre as tradições Aratu e Uru,
por exemplo, notam-se vários elementos comuns em sua indústria lítica:
percutores de seixos, quebra-cocos, polidores, raspadores laterais,
lâminas de machado polidas com garganta e semilunar, mãos-de-pilão
polidas e martelos. A indústria de lascas é reduzida e geralmente
limita-se ao uso de lascas sem trabalho secundário (Wüst 1983).
Essas semelhanças correspondem a instrumentos líticos básicos e
característicos de grupos agricultores. Por outro lado, há diferenças
sutis como talhadores uni e bifaciais, furadores, entre outros,
para a Tradição Uru, e mãos-de-pilão picoteadas, tembetás
de corpo médio e longo, entre outros, para a Aratu (Schmitz
et al. 1982).
Cabe ressaltar que, na maioria das pesquisas realizadas no Centro-Oeste,
sobretudo em Goiás com os primeiros programas de pesquisa arqueológica,
a análise dos instrumentos líticos não acompanhou a ênfase dada
às peças cerâmicas. Em campo, a coleta de material arqueológico
foi direcionada ao recolhimento de material cerâmico. É certo, porém,
que esta abordagem não reflete a situação atual das pesquisas na
região, embora dificulte as interpretações mais apuradas sobre o
sistema tecnológico e as inter-relações existentes nas sociedades
agrícolas pré-coloniais. Entretanto, as coleções cerâmicas existentes
em acervos de instituições de pesquisas são grandes, assim como
o número de publicações a respeito, embora suas interpretações mereçam
ser revisadas à luz de novas propostas metodológicas.
Na Tradição Aratu, grande parte dos recipientes é maior
que os dos grupos anteriormente tratados. Foram confeccionadas vasilhas
periformes, esféricas ou elipsóides grandes. As bordas dos recipientes
não apresentam reforço e as bases apresentavam-se arredondadas,
côncavas ou furadas. São comuns as formas grandes, que comportam
de dezenas a centenas de litros, embora sejam quase inexistentes
os grandes pratos ou assadores. Uma outra forma característica é
um pequeno vasilhame geminado
[15] . Destacam-se ainda rodelas de fuso, carimbos e cachimbos tubulares.
As decorações são poucas: inciso, entalhe, ungulado, ponteado, borda
acastelada, asa, aplique mamilonar, banho vermelho e pintura preta.
O antiplástico predominante é o mineral, que é substituído gradualmente
pelo cariapé (Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985). Segundo
Mello et al. (1996), esta relação temporal não está presente em
toda a região Centro-Oeste, de modo que os aditivos cerâmicos devem
ser utilizados com cautela na pesquisa arqueológica, podendo contribuir
ocasionalmente para a identificação de grupos culturais, mas não
necessariamente serem utilizados como parâmetro cronológico.
Os grupos portadores da Tradição Uru geralmente assentaram-se
ao longo dos principais rios, em ambientes abertos e de relevo pouco
acidentado; destacam-se as chapadas próximas às margens de lagos
de barragem e córregos perenes, com o predomínio da vegetação de
cerrado, em solo de baixa fertilidade e altitudes mais baixas (200-600
m) em relação aos assentamentos dos grupos da Tradição Aratu
(Wüst 1990). Quanto à sua subsistência, tinham no cultivo da
mandioca amarga e nos produtos da pesca os principais sustentos;
as atividades de caça e coleta complementavam, em menor escala,
sua dieta alimentar (Schmitz e Barbosa 1985).
Sítios da Tradição Uru foram encontrados em ambientes abertos
e fechados. Os sítios apresentam formas diversas: concentrações
cerâmicas que representam casas plurifamiliares, dispostas em sentido
linear. Podem formar até duas fileiras duplas com até 630 m de extensão
ou ter formas circulares e elípticas, formadas por diferentes concentrações,
de um a três anéis concêntricos com cerca de 500 m de diâmetro e
cujo depósito arqueológico não ultrapassa uns 30 cm de profundidade
(Schmitz et al. 1981-1982; Wüst 1983, 1990). Em alguns desses sítios,
constatou-se uma deposição arqueológica na parte central que poderia
corresponder à chamada casa dos homens, local onde foram
encontrados artefatos cerâmicos distintos daqueles localizados nas
supostas unidades residenciais (Wüst 1990). As aldeias maiores expressariam
contingentes demográficos em torno de 1.000 indivíduos, enquanto
as menores em torno de 200 pessoas (Wüst 1992).
Os grupos da Tradição Uru confeccionaram vasilhas com formato
de pratos e assadores, grandes tigelas rasas de borda reforçada,
características do processamento de mandioca, e jarros necessários
para estocagem de água, fermentação e conservação de bebidas. As
decorações são limitadas, ocorrendo pequenas incisões, ungulações
ou entalhes nos lábios ou bordas, apêndices ou apliques, suportes
de panelas, pinturas pretas sobre vermelhas, bordas acasteladas,
asa ou alça e carimbos. O antiplástico é predominantemente cariapé
(Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985).
Finalmente, sobre os grupos portadores da Tradição Tupiguarani,
sabe-se que eles são de origem amazônica e estiveram presentes em
praticamente todo o território nacional e demais países platinos.
Observa-se que em Goiás e Mato Grosso há maior predomínio da decoração
pintada sobre a plástica (Fensterseifer e Schmitz 1975; Schmitz
e Barbosa 1985; Wüst 1990; D. Martins 1996) [16] . Em Mato Grosso do Sul, sobretudo na região da bacia
do Paraná, predominam sítios com cerâmica de decoração plástica
(Kashimoto 1997; Martins e Kashimoto 1998, 1999a; Veroneze 1993);
ainda hoje em dia ali vivem milhares de índios Guarani, distribuídos
entre as etnias Kaiowá e Ñandeva.
Os sítios da Tradição Tupiguarani, ao menos os até agora
localizados, situam-se em ambientes de mata-galeria ou cerrado,
em terrenos aplanados ou em declives suaves, próximos a grandes
rios utilizados para atividades de pesca e transporte (Schmitz e
Barbosa 1985; González 1996a). Há registros de grupos em ambientes
fechados nos Estados de Goiás e Mato Grosso, nos quais fragmentos
cerâmicos são observados nas camadas mais superficiais de abrigos
e em ambientes abertos; os materiais indicam casos de uma única
concentração, a da casa comunal, como é o caso dos sítios encontrados
na região da bacia do Paranã (ver Simonsen et al. 1983-1984; Ribeiro
1988; Schmitz et al. 1989; Wüst 1990; D. Martins 1996). É importante
ressaltar que os sítios Tupiguarani, se por um lado são poucos
e bastante dispersos em certas áreas do Centro-Oeste, por outro
estão muito bem representados quando se trata de sítios multicomponenciais.
Estes sítios estão localizados em locais habitados, contemporaneamente
ou não, por grupos portadores de tradições distintas; isto não significa
necessariamente que grupos da Tradição Tupiguarani estejam
enfrentando dificuldades em ocupar espaços que, também, estão preenchidos
pelos grupos das grandes aldeias que ali já estavam estabelecidos
(Schmitz e Barbosa 1985). Acredita-se, no entanto, que esta questão
é bem mais complexa, pois a interação grupal, entre os portadores
da Tradição Tupiguarani e outros grupos, não pode ser pensada,
necessariamente, como de caráter negativo ou unilateral (Mello et
al. 1996). No Centro-Oeste, apesar da condição minoritária, grupos
tecnologicamente Tupiguarani ocuparam parte da região; formaram
sítios exclusivamente Tupiguarani ou sítios multicomponenciais;
neste último caso, mantêm presentes suas características culturais,
observadas através da continuidade de elementos tecnológicos, mesmo
ocupando uma área de território contíguo.
No Estado de Goiás, os portadores da Tradição Tupiguarani
subsistiam da agricultura, com destaque para a mandioca (Schmitz
e Barbosa 1985). Desenvolveram um sistema tecnológico que claramente
os distingue dos demais grupos. Sua cerâmica caracteriza-se pelo
emprego do antiplástico de cacos moídos, decoração pintada, com
destaque para a policromia, além de uma decoração plástica mais
caracterizada pela ocorrência de corrugado e inciso. Os recipientes
característicos são vasos rasos e com ombros, bases convexas ou
planas e bordas com reforço. Instrumentos líticos lascados também
são freqüentes nos sítios; apresentam marcas de técnicas de polimento,
além do lascamento uni e bipolar (Schmitz et al. 1989).
A região do alto Xingu, em Mato Grosso, assim como a região Amazônica
como um todo, tem sido abordada em diversos debates relacionados
à possibilidade de essa área proporcionar ou não recursos para uma
base econômica estável, necessária para o sedentarismo e o crescimento
populacional. Nesta perspectiva, destacam-se duas possibilidades:
uma, defendida por Meggers (1954), considera certos fatores ecológicos,
a exemplo da infertilidade dos solos, como barreiras para o desenvolvimento
da produção econômica e intensificação dos recursos; outra, elaborada
por Carneiro (1956), considera que o cultivo da mandioca, possível
mesmo em solos de baixa fertilidade e localizados em terra firme,
quando combinado com recursos aquáticos, poderia proporcionar uma
base econômica estável e nutricional segura para suportar grandes
populações.
As aldeias do alto Xingu apresentam datas ao redor do século 11
da Era Cristã, havendo possibilidade de estarem relacionadas a grupos
Arawak, representantes mais antigos da cultura xinguana contemporânea.
Os sítios situam-se em áreas selecionadas que proporcionam acesso
a diversos cenários ecológicos, como as florestas de terras altas
e rios. Os grupos dessa região, diferentemente de muitos outros
da Amazônia, particularmente aqueles que utilizam estratégias de
deslocamento sazonal e permanente, estão estruturados em grandes
e permanentes aldeias, cujas dimensões estão em torno de 800 metros
de extensão, sendo ocupadas por cerca de 2.000 pessoas. As aldeias
xinguanas geralmente apresentam valetas e elevações artificiais,
contornando sua periferia; essas construções refletem um modelo
concêntrico de organização espacial, onde o caráter defensivo é
notável, enquanto elementos estéticos e simbólicos também devem
estar presentes (Heckenberger 1998). Todavia, nas aldeias estudadas
por Becquelin (1993), as valetas são de contorno sinuoso e não delimitam
totalmente os sítios; isto coloca em dúvida seu caráter defensivo.
Na tecnologia cerâmica, observa-se o emprego do cauixi e cariapé,
com associações específicas de areia, conchas e cacos de cerâmica.
Como tratamento de superfície, destacam-se decorações pintadas e
plásticas, cujas formas relacionam-se com o processamento da mandioca
(Heckenberger 1998). Os objetos da lagoa de Miararré parecem não
constituir material utilitário, estando relacionados provavelmente
a depósitos rituais (Simonsen e Oliveira 1978).
Os sítios Bororo, por sua vez, estão implantados ao longo de rios
de maior porte (navegáveis), com elevada piscosidade e solos férteis,
próximos às matas ciliares. Em situações não-freqüentes, devido
ao contato, estabeleceram-se em cabeceiras de rios e áreas de cerrado.
Tinham no cultivo do milho seu principal sustento, complementado
pela caça, coleta e pesca (Wüst 1989). Apresentam aldeias de morfologia
circular ou elíptica. Na época dos primeiros contatos com os conquistadores
europeus, estima-se que a população estava em torno de 10.000 indivíduos
e que nos anos 90 contavam com aproximadamente 800 pessoas (Cook
1908 apud Wüst 1990).
A cerâmica Bororo é caracterizada por recipientes predominantemente
utilitários, semi-esféricos, de contornos simples, diversas formas
com gargalos e bases redondas. A espessura dos fragmentos varia
de 0,5 a 0,9 cm; a superfície apresenta tom enegrecido, tendo como
antiplástico diversos tipos de cinzas vegetais (Wüst 1989).
Por último, mas não menos importante, é oportuno tecermos algumas
considerações sobre aspectos sociais e ideológicos dos grupos ceramistas
que ocuparam o Centro-Oeste em tempos pré-cabralinos.
Nos grupos ceramistas e agricultores, os aspectos sociais estão
marcados por vários elementos, entre os quais pode ser destacada
a própria forma das grandes aldeias anulares. A morfologia desses
sítios reflete um padrão particular de sistema social, onde é possível
perceber várias esferas sociais ¾ a praça central, as casas ou a
periferia ¾ e os universos feminino e masculino (Wüst e Barreto
1999). As concentrações cerâmicas são entendidas como locais de
habitação ou áreas próximas a estes. Neste sentido, estas áreas
estariam relacionadas a atividades de preparo de alimentos e, portanto,
vinculadas ao universo feminino, enquanto a produção de artefatos
líticos estaria relacionada ao universo masculino. O pátio central,
na maioria das vezes sem evidência de deposição arqueológica, seria
um local público, onde eram realizadas atividades não relacionadas
à economia e onde categorias femininas e masculinas teriam papéis
específicos. A presença de urnas funerárias, em áreas situadas atrás
dos espaços residenciais, indica uma função relacionada à prática
de sepultamentos (Wüst 1983).
Dados sobre a proporção de ordem de grandeza e do espaçamento
dos sítios indicam que no universo social dos grupos agricultores
e ceramistas não havia uma centralização na organização sócio-política
e econômica. Cada comunidade local estaria representada por um grupo
econômico e político autônomo, sem especialização artesanal, ou
seja, havia um sistema segmentário, ocasionalmente expresso por
uma divisão de trabalho, em nível de unidades domésticas, que valorizavam
extensas redes de relações extra-culturais (Wüst e Carvalho 1996).
A presença ocasional de artefatos intrusivos indica a existência
de redes extra-comunitárias e extra-culturais. Isto demonstra que
os grupos do Centro-Oeste não eram unidades fechadas, mas propensas
a constantes fluxos não só de bens como de informações e pessoas
(Wüst 1983, 1990). A intensidade do contato entre grupos portadores
de tradições tecnológicas diferentes pode ser observada pela presença
de sítios multicomponenciais, a exemplo de sítios onde há elementos
Uru com Tupiguarani, Bororo com Uru,
entre outros (Fensterseifer e Schmitz 1975; Wüst 1990).
Ademais, interpretações sobre organização cultural do espaço,
em nível intra-sítio, têm apresentado padrões de disposição da cultura
material que normalmente não seriam percebidos por análises arqueológicas
usuais (ver Mello et al. 1996; Viana 1996; Wüst e Carvalho 1996).
Os dados obtidos reforçam um novo paradigma para a pré-história
do Centro-Oeste: demonstram que as sociedades agricultoras e ceramistas
não podem ser interpretadas, de forma generalizada, como simétricas
e igualitárias, mas que explanações acerca das diferenças e da complexidade
de formas possíveis de concepção do espaço vão além de uma adaptação
ao meio ambiente; refletem expressões hierárquicas, ou seja, classificações
internas entre os membros do grupo, dotados de valores regidos pela
dinâmica cultural.
Nesses grupos, as características das práticas de enterramento
e o tratamento diferencial entre os sepultamentos atestam uma preocupação
com o mundo sobrenatural e uma distinção social entre as pessoas
envolvidas. Não obstante, são pouco conhecidas as práticas de enterramento,
pois a acidez do solo não permite boas condições de preservação;
raramente permitem a identificação de sexo e idade. Outro fator
relacionado à escassez de dados é o extravio desses materiais, ora
por leigos, ora por encontrarem-se fora do país (Wüst 1990). Foram
registradas formas diferenciadas de tratamento com os mortos: enterramentos
primários, secundários diretos e secundários em urnas (Schmitz et
al. 1989, 1986). Esta variedade de tratamento pode estar relacionada
a diferenças no sistema social.
Para a Tradição Una, há um maior número de informações
sobre práticas de enterramentos. Isto porque grande parte dos sítios
levantados encontra-se em abrigos sob rocha, locais mais favoráveis
à preservação de esqueletos humanos. Os dados indicam o predomínio
de enterramentos primários, em posição fletida ou estendida, semelhantes
aos de grupos caçadores-coletores anteriores. Também existem enterramentos
cercados por pedras e cobertos por uma laje, em posição fletida,
com ossos marcados de ocre vermelho. Acrescentam-se ainda prováveis
sepultamentos secundários diretos, de natureza coletiva e pertencentes
a indivíduos jovens. Destaca-se também um enterramento de criança
em posição fletida, coberta por grande quantidade de contas de sementes,
tendo fincada sobre ela uma marca, interpretada como um possível
indicador do local do enterramento. De um modo geral, a forte flexão
dos corpos ¾ cabeça muito junto ao corpo, coluna dobrada em arco
e pés às vezes em posição forçada, acomodados ao espaço disponível
¾ sugere enterramentos envoltos, como fardos, sempre deitados de
lado, preferencialmente o esquerdo (Schmitz et al. 1989). Na região
da bacia do Paranã, os dados disponíveis são de sepultamentos em
decúbito dorsal, localizados sobre um leito de cinzas, com a cabeça
rodeada de blocos calcários e toda a área recoberta por cacos cerâmicos.
Ademais, como acompanhamento, registram-se colares de sementes e
pingentes sobre placas de moluscos (Simonsen et al. 1983-1984).
Entre os grupos das tradições Aratu, Uru e Tupiguarani,
há o predomínio de enterros secundários em urnas, localizadas em
áreas de habitação, cemitérios a céu aberto ou em abrigos rochosos,
como é o caso da bacia do Paranã. Os acompanhamentos funerários
variam desde tembetás a vasilhas cerâmicas, entre outros. Os enterramentos
secundários sugerem maior complexidade do universo simbólico; exigem
maior dedicação e sofisticação de práticas rituais, as quais representam
o fortalecimento de laços sociais e rituais (Wüst 1990).
As manifestações artísticas, por sua vez, também estão diretamente
relacionadas ao universo simbólico de grupos pré-coloniais. A análise
das manifestações artísticas pré-históricas no Centro-Oeste é bastante
complexa e polêmica, pois, ao buscar relacionar as técnicas de execução
e o tema representado em tradições já estabelecidas para outras
regiões do país, foram estabelecidas associações frágeis, baseadas
em números reduzidos de elementos semelhantes. Há, todavia, uma
exceção: a Tradição Geométrica, que está bem representada
em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (ver Wüst 1990; Veroneze 1993;
Beber 1994; G. Martins 1996).
Sobre a Tradição Geométrica, é importante dizer que ela
está caracterizada pelo predomínio de figuras geométricas com a
utilização da policromia; figuras zoomórficas e antropomórficas
são raras. A distribuição espacial desta tradição compreende os
seguintes Estados: Bahia, Pernambuco, Piauí, Minas Gerais, Goiás,
Mato Grosso e talvez Mato Grosso do Sul.
Em Goiás, dominam os estilos Caiapônia e Serranópolis,
os quais representam manifestações artísticas com características
regionais. O Estilo Caiapônia, localizado no sudoeste de
Goiás, está caracterizado pela predominância de figuras em movimento,
sobretudo as antropomórficas e, em menor proporção, geométricas
e zoomórficas. As figuras geralmente são apresentadas em perfil,
sendo que em alguns antropomorfos observa-se o destaque de certos
detalhes anatômicos, a exemplo de nádegas, e a ausência de outros,
como pés e mãos. Também é comum a representação de instrumentos
e indumentárias. Figuras fitomórficas também estão representadas,
embora em pouca quantidade. No Estilo Serranópolis, situado
um pouco mais ao sul, a maioria das manifestações é de figuras geométricas;
são raras as figuras antropomórficas e zoomórficas, geralmente representadas
de forma estática em relação ao Estilo Caiapônia (ver Schmitz
et al. 1978-1980; Schmitz et al. 1997; Schmitz et al. 1986; Silva
1992).
É importante ainda mencionar os petroglifos presentes no Estado
de Goiás, localizados nas regiões de Serranópolis, Caiapônia, bacia
do Paranã, região de Jaraguá e Itapirapuã (Schmitz 1981-1982; Souza
et al. 1979). Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ocorrem petroglifos
nas áreas dos rios Araguaia, São Lourenço, Xingu, Guaporé, Negro,
Itiquira, Teles Pires, Sucuriú e no planalto Maracaju-Campo Grande
(Vilhena-Vialou e Vialou 1989; Wüst 1990; Beber 1994; Pardi 1995;
G. Martins 1998; Wüst e Vaz 1998).
Embora seja bastante complexo relacionar manifestações artísticas
a determinadas tecnologias líticas ou ceramistas, alguns autores
apontam para a possibilidade de grupos caçadores-coletores terem
produzido arte. Neste caso, estariam aproveitando os suportes rochosos
de abrigos (Simonsen 1975; Schmitz 1984; Vilhena-Vialou e Vialou
1987; Schmitz et al. 1989; Wüst 1990). Nesta perspectiva, a Tradição
São Francisco é associada, em Minas Gerais, a grupos agricultores
e ceramistas. Os petroglifos, por sua vez, também por serem posteriores
às pinturas, foram genericamente associados aos grupos agricultores
das grandes aldeias; este é o caso de algumas tentativas de correlação,
por exemplo, das gravuras dos abrigos do rio do Peixe aos grupos
ceramistas portadores da Tradição Uru. Schmitz et al. (1982)
também associam as gravuras sobre os lajedos da bacia do Araguaia
aos portadores dessa mesma tradição; a área de maior dispersão dos
sítios com petroglifos abrange porções do alto Araguaia, médio Paranã
e alto Tocantins.
Enfim, sobre a arte rupestre existente no Centro-Oeste, muito
ainda está por ser feito paralelamente ao estudo dos grupos caçadores-coletores
aceramistas e agricultores ceramistas que se estabeleceram na região.
CONTINUA EN
LA SEGUNDA PARTE
[1] Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul Campus de Dourados (Brasil).
[2] Universidade Católica
de Goiás Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia
(Brasil).
[3] Os termos pré-história,
pré-colonial e pré-cabralino são aqui empregados
para referir-se às populações ameríndias anteriores ao contato
com os conquistadores europeus.
[4] Os conceitos tradição
(grupo de elementos ou técnicas com persistência temporal)
e fase (qualquer complexo tecnológico relacionado no tempo
e espaço)são aqui utilizados no sentido restrito à tecnologia,
seja cerâmica, seja lítica (ver Souza 1997).
[5] AP significa anos
Antes do Presente, onde o presente é considerado o
ano de 1950.
[6] Maiores detalhes
sobre esta questão, ver Prous (1992), Anais da Conferência
Internacional sobre o Povoamento das Américas (1996), Lahr
e Neves (1997) e Tenório (1999).
[7] Este período corresponde,
em parte, ao do Optimum Climaticum ou Altithermal,
isto é, a uma fase planetária de aumento de calor em que houve
a dissolução de geleiras polares e de cordilheiras (AbSaber
1994).
[8] Estudos de ecologia
humana indicam que a densidade populacional entre grupos caçadores-coletores
é aproximadamente de 35 a 75 indivíduos. Esta idéia leva em conta
que o número de indivíduos deve ser abaixo do nível de exaustão
dos recursos naturais existentes em um determinado nicho.
[9] A Tradição Aratu
corresponde às antigas tradições Aratu e Sapucaí;
alguns arqueólogos a citam como Tradição Aratu-Sapucaí.
[10] Tupiguarani
(sem hífen) refere-se a uma tradição tecnológica ceramista.
O termo Tupi-Guarani (com hífen), por sua vez, é empregado
para denominar uma família lingüística.
[11] A datação mais
antiga desta tradição é de 410 a.C., no médio Tocantins. Há também
uma datação de 2.920 AP, referentes a grupos ceramistas não-pertencentes
tecnologicamente à Una, na região de Caiapônia, que, segundo Schmitz
et al. (1986), não é confiável por haver a possibilidade de mistura
de carvão das camadas mais antigas do sítio.
[12] Há controvérsias
sobre a presença de grupos portadores da Tradição Aratu no
norte de Mato Grosso (ver Pardi 1995). Uma data obtida por termoluminescência
de 1.779 ± 170 AP, para um sítio no sudeste de Goiás, e uma outra
de 2.280 ± 60 AP, para a região goiana de Corumbá, sugerem uma
antigüidade maior do que a convencionalmente aceita, porém não
sendo totalmente confiáveis (ver Andreatta 1985; Mello et al.
1996). Há ainda a hipótese, não-comprovada através de dados arqueológicos,
de que grupos portadores da Tradição Aratu tenham dado
origem aos Kayapó do Sul (cf. Schmitz 1982; Ataídes 1998).
[13] Até o presente
momento, as evidências botânicas mais antigas de milhos e cucurbitáceas
foram encontradas na Lapa do Gentio II, Minas Gerais; para este
sítio há datas em torno de 1.540 a.C. (Dias 1981).
[14] A forma da aldeia
também pode ser observada através de manchas pretas, formadas
por acúmulo de material orgânico oriundo das unidades residenciais.
[15] A forma dupla
poderia ser um elemento guia na identificação da Tradição Aratu;
está representada na Fase Mossâmedes. No entanto, em casos
isolados, esta forma ocorre na Tradição Uru e no sítio
GO-CA-03 (Schmitz et al. 1982).
[16] Não há dados dessa
natureza para a região do Alto Paraná.
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