Os traços materiais são os testemunhos que mais se manifestam e que mais
duráveis são dentro de uma cultura. De muitas das civilizações passadas,
é tudo o que nos resta.
Marcel Maget
O Turismo pode e deve ser observado nas suas
mais diversificadas facetas. Sendo uma criação humana, este fenómeno
tal como outros, está longe de ser uma actividade perfeita e, por
conseguinte, devem os fenómenos turísticos ser estudados pelas mais
diversas ciências sociais.
O turismo não é mais do que um fenómeno migratório temporário.
Um fenómeno que acontece e é alimentado por um vai e vem de gentes,
com os seus diferentes modos de falar, estar e actuar.
Na actividade turística de qualquer país ou comunidade podem ser
encontrados aspectos positivos e negativos. O que pretendo com esta
comunicação é reflectir sobre a vertente positiva que o incremento
da actividade turística poderia exercer sobre as artes e os ofícios
tradicionais portugueses.
Será o Turismo uma das" tábuas de salvação", para muitas das actividades
artesanais em vias de extinção em Portugal?
O turismo é um excelente veículo de transmissão e divulgação cultural.
É a primeira imagem mental que me surge. O Turismo como actividade
quase mágica que permite uma mistura tão ímpar e infinita de ideias,
costumes, linguagens, formas de estar e assim por diante.
Devem as comunidades que recebem turistas apenas receber o que
vem do exterior? Devem adaptar-se e deixarem-se aculturar
por aquilo que vem do exterior? E onde fica a história dessa comunidade?
Que memórias devem persistir e continuar para além do tempo e do
espaço? Devem essas comunidades esquecer as suas raízes? Como vencer
este fenómeno ou como conjugar todas estas problemáticas, aceitando
e, por vezes adoptando o que vem do exterior, sem perder a tão desejada
identidade cultural.
É sem dúvida uma tarefa difícil esta de "trabalhar" o Turismo do
ponto de vista positivo. E isto significa que se deve ter em conta
não só o aspecto financeiro, mas também o aspecto cultural e um
acreditar de que os aspectos que mais caracterizam ou identificam
uma determinada comunidade não morrem nem desaparecem porque se
"recebe em casa" visitantes provenientes de toda a parte. O que
acontece é que às nossas memórias e vivências culturais se vão juntando
outras partículas culturais que vão transformando essas memórias
à velocidade que essa mesma comunidade permitir.
Tal como afirma o antropólogo acima citado -Marcel Maget-, os fenómenos
materiais são aqueles que mais tempo permanecem visíveis e que servem
de prova para muitas outras abordagens acerca da actividade humana
no Planeta.
Olhar e conhecer os Ofícios Tradicionais, é uma extraordinária
viagem a um passado que em muitos casos ainda faz parte do presente.
Afinal a cultura também passa pelos objectos.
Através deles contamos a história de parte da nossa História.
Por mais que as pessoas em geral pensem que os objectos nada
nos dizem ou eventualmente caracterizem como desperdício de tempo,
a análise, a atenção e o investimento em estudos desta natureza,
a realidade é bem mais simplista. As sociedades são desde sempre
constituídas e assistidas pelo "material". Há de facto uma diversidade
enorme de mundos materiais... cada comunidade, região ou país, tem
a sua história material. Cada uma delas teve e tem um percurso que
assenta sobre aquilo que se cria e que através do gesto se corporiza,
isto é, tem vida.
A relação entre o Turismo e as Artes e os Ofícios Tradicionais pode
pois ser observada sob 4 prismas:
1- Turismo/ Cultura Urbana / Cultura Rural
2 - Turismo e Globalização
3 - Turismo e Preservação do Património
4 - Turismo: intercâmbios e aprendizagens entre visitantes
e visitados
Estes 4 aspectos podem ainda ser olhados todos juntos e analisados
na sua globalidade. As vertentes aqui levantadas estão todas próximas
e, por conseguinte, interdependentes.
Neste sentido, o Turismo como fenómeno de massas que é, foi durante
muito tempo considerado uma actividade urbana. Hoje, a ideia está
completamente ultrapassada e a prova são as inúmeras regiões rurais
que se abriram para esta nova forma de vender bem-estar, descanso
e também cultura. O Turismo não é de forma alguma uma actividade
urbana, mas sim uma actividade que exige algumas urbanidades.
Quem faz turismo tenta obter durante esse período muito do que não
consegue diariamente. Este desejo é corporizado num certo bem-estar
e conforto material, que dá ao turista uma espécie de energia e
o faz esquecer em parte o mundo donde provém. Aqui e, só aqui, as
regiões rurais tiveram e têm de se adaptar. Temos cada vez mais
cidadãos bem informados e exigentes que só querem o melhor. Têm
de facto as regiões rurais de criar infra estruturas que possam
atrair forasteiros e dar-lhes todas as condições para que
estes ali permaneçam o maior tempo possível. Não vejo aqui qualquer
adversidade entre o Turismo e o Mundo Rural. O que há é uma maior
aproximação entre estes dois mundos. Existem diferenças, diferenças
essas que são cada vez mais cultivadas por quem vive nas regiões
rurais e, desejadas e apreciadas por quem vive nos espaços urbanos.
Este vai-vem de gentes, contribuiu para o cair das fronteiras físicas
entre países e/ou regiões e simultaneamente para o estreitar de
relações entre o tradicional e o moderno. Os media e o turismo
podem ser considerados responsáveis pela globalização da
cultura.
Sem dúvida, que a globalização é das temáticas mais polémicas do
ponto de vista da afirmação cultural dos povos. Muitas têm sido
as discussões entre os técnicos e inúmeras têm sido igualmente as
opiniões. Esta realidade pode ser encarada quase como uma luta entre
o bem e o mal. Por um lado, a Humanidade caminha tendencialmente
para a unificação e homogeneização, mas por outro lado não abdica
da diversificação.
Em altura de grandes revoluções ao nível da ciência Genética, contra
a "clonagem" cultural insurge-se meio mundo. Lévi -Strauss defende
que o que «deve ser salvo ou preservado é o direito à diversidade
e não o conteúdo histórico que cada época deu, dado que nenhuma
conseguiria prolongar-se para além de si mesma» (1973:339).
Desde há muito que, de um lado se encontram os defensores da globalização
e, de outro lado os defensores das identidades culturais.
Porque a globalização é consequência da modernização, será esta
última incompatível com a preservação das identidades culturais
de cada um de nós?
Se inicialmente era usual pensar-se desta forma, neste momento
e, dado o que se tem observado, o que está a acontecer é precisamente
o contrário. Pedro García Gomes, Catedrático da Universidade de
Granada, defende que a globalização é inevitável, o progresso e
a diversidade são importantes para que a Humanidade não se "ossifique".
O autor vai ainda mais longe quando afirma ser muito perigosa a
noção de "identidade cultural", uma vez que a considera demasiado
reducionista e desumanizadora. A globalização não deve ser restrita
ao aspecto económico-financeiro. Esta, dá não só possibilidades
aos indivíduos de acederem a outras culturas, como abre também caminhos
para uma melhor e mais eficaz defesa das suas próprias referências
culturais. Neste contexto a globalização não fará desaparecer as
culturas locais, pelo contrário, tudo o que for realmente importante
e valioso culturalmente, encontrará à escala mundial terreno propício
para germinar, desenvolver-se e expandir-se.
Isto significa que a ideia da preservação das raízes culturais
dos povos, deixa de cingir-se meramente às fronteiras físicas dos
territórios. O reavivar de pequenos costumes e tradições locais,
devolverá à Humanidade a riqueza da multiplicidade de comportamentos
e manifestações de cada um dos povos. O mais interessante é que
García Gomez defende e encara a globalização, não como um fenómeno
de massificação e homogeneização, mas sim como elemento de diversificação.
Assim mesmo: a Cultura constrói-se e reconstrói-se todos os dias.
Ela é imutável. Os objectos são por conseguinte construções culturais
e, por isso não podem ser entendidos fora de um determinado contexto
cultural. A função e o significado de cada artefacto estão intrinsecamente
e inteiramente dependentes de padrões culturais. Ao estudarmos os
Ofícios tradicionais, ou num sentido mais abrangente a cultura material
de uma comunidade, estamos a conhecer melhor essa mesma comunidade.
O Turismo funciona sem qualquer dúvida como forma de preservação
do património, ou melhor, de patrimónios. A prova disso, é que em
Portugal algumas artes tradicionais "escaparam" da extinção precisamente
por causa do fenómeno turístico, como é o caso da Olaria, da Tapeçaria
e da Doçaria.
Adequados e cuidados planos de intervenção cultural, ajustados
às realidades de cada região, podem funcionar como potentes "armas"
de arremesso contra a descaracterização identitária das comunidades,
regiões ou territórios.
A cultura é uma construção diária e por conseguinte, permanente.
Neste sentido, o intercâmbio entre os "visitados" e "visitantes"
é frutuoso porque se vai complexizando e crescendo diariamente.
As trocas são permanentes e muito positivas, na medida em que se
dá e recebe simultaneamente.
Podemos então encarar o acto turístico, como uma interessante forma
de aprendizagem e de troca de conhecimentos e experiências. Todas
as regiões que vivem sob este fenómeno, sabem o quanto é importante
mante-lo vivo. Dele dependem não só o desenvolvimento económico
dessa região, como também o crescimento e enriquicemento cultural
da mesma.
Concluíndo, o turismo é uma excelente forma de afirmação cultural
e através dele a preocupação de se manter uma certa identidade local
ou regional, é uma realidade incontestável. O tradicional e o moderno
caminham de "mãos dadas", num Mundo que se auto denomina cada vez
mais como Global, standarizado, único. É sem dúvida muito interessante
ver como é que as sociedades desejam tanto estar próximas umas das
outras - mesmo quando as distâncias entre elas são de milhares de
Quilómetro - e ao mesmo tempo, distanciam-se e marcam a diferença
através dos seus elementos culturais, sejam eles físicos, morais
ou psicológicos
Por tudo o que foi dito anteriormente, o turismo pode e deve ser
uma das formas de preservação das Artes e Ofícios Tradicionais.
Quando muitas regiões em Portugal perceberem esta realidade, muito
do Património que diariamente se perde, irá permanecer vivo e continuará
a enriquecer e a perpetuar a história cultural das populações.
BIBLIOGRAFIA:
Barreto, Margarida
2000 Los Museos y Su Papel en la Formación de la Identidad,
www.naya.org.ar/articulos/identi02.html, 2001
Conceição, Angélica Ferreira da
1996 A Refuncionalização do Cesto de Vindima Tradicional no
Concelho de Azambuja, policopiado,
García, Pedro Gomez
2000 Globalización Cultural, Identidad y Sentido de la Vida,
2001
Lévi-Strauss, Claude
1973 Antropología Estructural - Mito, Sociedad, Humanidades,
México, Siglo XXI, 1979
Maget, Marcel
1962 Guide D'Etude Directe Des Comportements Culturels,
Paris, Centre National de la Recherche Scientifique
Mauss, Marcel
1967, Manual de Etnografia, Lx, Publicações D. Quixote,
1993
Miller, Daniel
1998 Why Some Things Matter, www.indiana.edu/~wanthro/miller.html
2001, citado por Tracy Luedke
Nogueira
, Sandra
2000 A Tanoaria no Concelho do Cartaxo, in Programa Nacional
de Bolsas de Investigação para Jovens Historiadores e Antropólogos,
3ª Edição 1996/97 (Beira Litoral, Estremadura e Ribatejo),
Volume III, Lisboa/Porto, Fundação da Juventude.
Ostrowska, Anna
2000 Our Lady in Constant Help - Uses of Material, www.ub.es/easa/42w.html,
2001