QUARTEIRÃO JORGE AMADO.
UM POTENCIAL LOCAL PARA O TURISMO CULTURAL NA CIDADE DE ILHÉUS*
Juliana Santos Menezes**
Resumo
O turismo cultural vem se destacando atualmente, aliando planejamento
econômico e de infra-estrutura à percepção da procura por bens culturais
e estilos de vida. Isto acontece devido ao crescente interesse do
turista em compreender a cultura e a história de lugares diferentes,
assim como conhecer hábitos e costumes de outros povos. Essa procura
por cultura tem levado a um crescente interesse em revitalizar artefatos
com valor cultural, com o objetivo de dinamizar o turismo, melhorar
a economia e, ao mesmo tempo, valorizar a cultura local. Nesse sentido
o presente artigo procurou analisar como as imagens de Ilhéus- cidade
litorânea localizada no sul da Bahia, na região nordeste do Brasil
- citadas pelo escritor Jorge Amado podem ser utilizadas para o
desenvolvimento do turismo e para a valorização da cultural local,
agregando significado e valor ao legado cultural reunido no Quarteirão
Jorge Amado - roteiro turístico-cultural baseado nas imagens da
cidade de Ilhéus retratadas na ficção de Jorge Amado. Em conseqüência
disso, foi feito um breve estudo sobre o Quarteirão, buscando analisar
como as imagens amadianas são utilizadas para a valorização de
Ilhéus como centro turístico. Em seguida, foi apresentada uma descrição
sobre o caráter cultural, social e histórico da obra de Jorge Amado.
Por fim voltou-se a atenção para a importância de um planejamento
turístico responsável e participativo para que haja uma relação
eficaz entre turismo e patrimônio cultural, evitando assim a banalização
e o uso apenas mercadológico do Quarteirão Jorge Amado. Para tanto,
foi utilizado o método exploratório que envolveu pesquisa bibliográfica
e o método descritivo que possibilitou a descrição da situação atual
do turismo com base na literatura de Jorge Amado. O trabalho parte
do pressuposto de que o turismo cultural, pode andar de mãos dadas
com a sustentabilidade na medida em que se busquem alternativas
capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável em geral,
visando promover o bem estar da comunidade e garantindo a preservação
e valorização de sua identidade cultural. Este estudo demonstrou
que o Quarteirão Jorge Amado está sendo explorado apenas sob o ponto
de vista mercadológico. Isto devido à falta de um planejamento que
envolva a comunidade, assim como a falta de ações interpretativas
que venham a valorizar a cultura do local e a experiência do turista
cultural.
1. Introdução
Um dos tipos de turismo que mais cresce atualmente é aquele que
alia planejamento econômico–financeiro e de infra-estrutura
à percepção da procura por bens culturais e estilos de vida. Isto
acontece devido ao crescente interesse do turista em compreender
a cultura e a história de lugares diferentes, assim como conhecer
hábitos e costumes de outros povos (LAGE & MILONE, 2000). Este
tipo de turismo, analisado segundo o critério da motivação, de acordo
com Margarita Barreto (2000) é chamado de turismo cultural, aquele
em que o principal atrativo é algum aspecto da cultura humana. Esse
aspecto pode ser a história, o cotidiano, o artesanato ou qualquer
aspecto que o conceito de cultura1
abrange.
A procura por cultura tem levado a um crescente interesse em
preservar e revitalizar artefatos com valor cultural, com o objetivo
de atrair o turista, manter a identidade cultural e melhorar a economia.
Dessa forma, um estudo que procura analisar o uso do patrimônio
cultural2 da cidade
de Ilhéus como atração turística, parece ao mesmo tempo oportuno
e relevante, visto que o problema do turismo com base na cultura
vem preocupando especialistas e estudiosos da área de cultura e
já suscitou vários estudos. Margarita Barreto (2000), por exemplo,
procurou demonstrar a importância do legado cultural como atrativo
turístico porque pode atrair um público diferenciado e ao mesmo
tempo ajuda a recuperar a memória e a identidade do local, assim
como manter a economia. Por outro lado, segundo a autora, este tipo
de turismo acaba banalizando a cultura, pois o “patrimônio
deixa de ser valioso por sua significação na história ou na identidade
local e passa a ser valioso porque pode ser ‘vendido’
como atrativo turístico” (BARRETO, 2000, p. 32). Américo Pellegrini
Filho, em Ecologia, Cultura e Turismo (2000) também discute
o assunto, abordando a problemática da preservação cultural. O autor
ainda aponta alguns casos de revitalização de bens patrimoniais
que foram aproveitados como recursos turísticos e acabaram sendo
integrados ao quadro econômico-financeiro do local e ao mesmo tempo
ajudaram a melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. A restauração
do Pelourinho, em Salvador (Ba), foi um dos casos citados pelo autor.
Tendo em conta essas considerações, é que se intenta analisar
como o patrimônio cultural da cidade de Ilhéus, especificamente
aquele reunido no Quarteirão Jorge Amado, pode ser utilizado para
a valorização da cultura local. Em conseqüência disso, na primeira
parte do trabalho será feito um estudo de caso do Quarteirão Jorge
Amado, buscando analisar como as imagens construídas pelo escritor
são utilizadas para valorização de Ilhéus como centro turístico.
Em seguida, será apresentada uma breve descrição sobre o caráter
cultural, social e histórico da obra de Jorge Amado para salientar
a necessidade de sensibilizar a comunidade local a respeito do conhecimento
das histórias contadas por este escritor para que se possa compreender
o valor intrínseco da construção do Quarteirão. Por fim, será voltada
a atenção para a importância de um planejamento turístico responsável
e participativo para que haja uma relação saudável entre turismo
e patrimônio cultural, evitando assim a banalização e o uso apenas
mercadológico do Quarteirão Jorge Amado.
O trabalho parte do pressuposto de que o turismo cultural, apesar
de sua dimensão não sustentável (porque se utiliza da cultura como
um bem de consumo provocando a sua trivialização), pode andar de
mãos dadas com a sustentabilidade na medida em que se busquem alternativas
capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável em geral,
visando promover o bem estar da comunidade e garantindo a preservação
e valorização de sua identidade cultural. Trata-se de um turismo
cultural sustentável, segundo Swarbrooke (2000).
2. O Quarteirão Jorge Amado
A cidade de Ilhéus é conhecida pelos quatro cantos do mundo como
Terra de Jorge Amado, Terra da Gabriela e Terra dos Coronéis do
Cacau, epítetos que recebeu em decorrência das fascinantes narrativas
contadas por Jorge Amado e que tiveram a cidade como cenário. Alguns
dos romances do escritor, como Terras do Sem Fim (1942),
São Jorge dos Ilhéus (1944) e Gabriela, cravo e canela
(1958) revelam uma variedade de imagens que sinalizam tanto aspectos
culturais quanto aspectos naturais e arquitetônicos da região.
Por conta desse manancial cultural e de um conjunto de traços
característicos do estilo do escritor de Gabriela (descrição fotográfica,
humor e linguagem que se aproxima da oralidade), além do sucesso
de sua obra atestado nas inúmeras reedições e pelas transposições
para cinema, televisão, música e teatro, o leitor (turista) tem
interesse especial em conhecer a cidade e identificar locais históricos
habitados pelas personagens e ao mesmo tempo conhecer a história
e a cultura da cidade. Este interesse impulsionou a preservação
e a revitalização do patrimônio cultural e a criação de um roteiro
turístico baseado nas imagens de Ilhéus retratadas na ficção deste
escritor baiano. Neste sentido, os casarões, as igrejas e todo o
centro histórico de Ilhéus transformaram-se em recurso turístico
num projeto denominado “Quarteirão Jorge Amado”. No
projeto do Quarteirão, a figura do escritor Jorge Amado é utilizada
a todo o momento: nos banners colocados na parede de cada
patrimônio, nas camisetas de identificação dos funcionários das
empresas participantes do projeto, nos folhetos de informação, nos
mapas e cartazes de divulgação.
Além disso, o turista pode circular pelo Roteiro Cravo e pelo
Roteiro Canela, passando em frente dos casarões deixados pelos coronéis.
Passeando pelo Roteiro Cravo, por exemplo, o turista pode conhecer
a Catedral de São Sebastião, sentar no Bar Vesúvio para comer o
quibe da Gabriela ou visitar a Casa de Cultura Jorge Amado, lugar
onde o escritor passou parte de sua vida e escreveu seu primeiro
livro: O país do carnaval. Enfim, o turista pode conhecer
um pouco das histórias contadas por Jorge Amado.
O projeto Quarteirão Jorge Amado, também inclui obras de recuperação
parcial ou total dos casarões e das praças, sempre procurando preservar,
na medida do possível, a originalidade das construções. Os prédios
recuperados são devolvidos à comunidade para desempenhar as suas
funções originais ou podem ser ressignificados, mudando-se as funções
originais e dando-lhes novos usos. O Bar Vesúvio, por exemplo, foi
recentemente restaurado e revitalizado, preservando as suas características
originais; e foi reinaugurado, preservando a sua função original:
a de bar. Já o Bataclan, antiga casa noturna que divertia os coronéis,
teve a sua fachada restaurada, no entanto, apesar da preocupação
em manter preservadas as suas características originais, as suas
portas e janelas de madeira foram substituídas pelas portas e janelas
de vidro fumê. A sua restauração total está sendo feita atualmente.
O espaço será ressignificado e a sua função original será substituída
por um salão de festas onde poderão acontecer eventos culturais,
como apresentações teatrais, palestras e saraus.
Pretende-se, com a construção do Quarteirão, atrair o turista,
melhorar a economia e valorizar a cultura local, preservando a identidade
cultural. Este último objetivo é muito importante e sobre isto afirma
Margarita Barreto (2000, p. 43) “a manutenção do patrimônio
histórico, em sentido amplo, faz parte de um processo maior ainda,
que são a conservação e a recuperação da memória, graças à qual
os povos mantêm sua identidade”.
No entanto, tem-se observado que parte da comunidade local mal
sabe localizar o Quarteirão e quase não conhece as histórias contadas
por Jorge Amado, muito menos o seu valor cultural, social e histórico.
Isto acaba dificultando a preservação do patrimônio e a valorização
da cultura. A população não consegue compreender o valor intrínseco
que há na restauração e revitalização do patrimônio cultural e,
portanto não há como perpetuar sua história, suas lendas e sua cultura,
por falta de conhecimento.
Fica por conta dos guias turísticos dar informações básicas sobre
a história do local. Conclui-se, com isso, que todo o legado cultural
reunido no Quarteirão Jorge Amado tem sido explorado apenas sob
o aspecto de seu valor mercadológico deixando em segundo plano o
seu valor cultural. Nesse caso, “a busca dos elementos característicos
e diferenciais [...] aparece como uma necessidade de mercado, a
cultura autóctone é a matéria-prima para a criação de um produto
turístico comercializável e competitivo internacionalmente. O legado
cultural, assim transformado em produto para o consumo, perde seu
significado. A cultura deixa de ser importante por si mesma e passa
a ser importante por suas implicações econômicas. A história não
é importante porque mostra as raízes, mas porque traz dinheiro”
(BARRETO, 2000, p 48).
3. É preciso conhecer para preservar.
O escritor Jorge Amado "pinta", como poucos, a sua terra, a sua
Rainha do Sul, a sua querida Ilhéus. Tomando como referente suas
vivências, os fatos históricos e os "causos" contados pelos mais
velhos, Jorge Amado reconstrói, na sua narrativa, a saga do cacau,
a luta pela conquista das matas e histórias de mulheres sensuais
que aconteceram nestas terras do sem fim. A respeito disso, o próprio
Jorge Amado faz o seguinte comentário:
Nessas terras de Ilhéus e Itabuna, [...] fui buscar homens de
uma rude humanidade para traçar com eles a saga da conquista da
terra, a grandeza e a miséria dos coronéis e do latifúndio, o nascimento
de uma civilização na boca dos rifles, de uma cultura massada na
violência. Contei histórias de espantar, levantei o monumento de
alguns homens que eram ao mesmo tempo fraternos e brutais, de normas
estritas e impossível vilania, tratei das mulheres que mantiveram
alta a chama do amor onde só a morte comandava.
(AMADO, 1972 apud COSTA, 1991, p. 33)
É a partir dessa relação entre o vivido e o imaginário que o escritor
tece a sua ficção com fatos, personagens e lugares históricos que
dialogam com outras histórias que povoam o seu imaginário, aproximando
a sua literatura da realidade.
Para tanto, Jorge Amado escreve os seus romances da maneira mais
descritiva e fotográfica possível, criando no leitor a sensação
de estar “vendo” a cena tal como aconteceu na realidade.
É como se o escritor estivesse pintando um quadro com palavras.
É esse tipo de descrição que Flora Sussekind chama de “a
estética do visível”, uma forma de repetição da estética naturalista
em que o “leitor é dominado por um desejo irresistível de
ver” e o escritor centra sua concepção de literatura na realidade,
assemelhando-se a um processo fotográfico, em que a sua narrativa
se reveste de objetividade e clareza (SUSSEKIND, 1984). Ao escritor,
cabe fotografar o real com palavras e ao leitor, “ler para
ver” (ibidem, p. 91).
Além de uma descrição fotográfica do espaço físico, natureza e
imagens arquitetônicas, Jorge Amado conta, através da construção
de perfis humanos, a essência de seu povo, seus anseios, costumes
e hábitos, a vida de um povo que possuía o visgo do cacau grudado
nos pés e no coração.
A tendência em retratar as características e os costumes do povo
baiano demonstra a grande preocupação do escritor com as questões
sociais e atribui à sua obra um caráter sociológico. Ao revelar
a essência da baianidade, o escritor de Gabriela, cravo e canela,
acaba por mostrar aspectos da sociedade e das relações sociais existentes
na sociedade brasileira.
Sobre este assunto, Roberto Da Matta, no livro A Casa e a
Rua, afirma que a obra de Jorge Amado pode ser entendida como
a representação dos problemas da sociedade brasileira. Assim, o
que se vê no romance amadiano é a carnavalização, isto é, o relacionamento
entre categorias sociais divergentes e a possibilidade de diálogo
entre pessoas, categorias e ações sociais. E é justamente este aspecto
carnavalesco que tipifica a sociedade brasileira (DA MATTA, 1991).
Jorge Amado, na sua carnavalização, revela uma baianidade que
resultou de um processo de miscigenação, em que são observadas características
físicas e comportamentais do índio-nativo, do negro-africano, do
branco-europeu e de outras tantas culturas estrangeiras. Sobre este
assunto, o escritor de Gabriela, cravo e canela afirma que
"o brasileiro é um povo muito especial e isso vem exatamente dessa
mistura de negro, branco e índio" (apud MAX, 1996, p. 13).
Esse cruzamento entre as raças delega ao Brasil uma variedade
culinária, musical e religiosa muito grande. A observação do antropólogo
Waldeloir Rego confirma o que foi dito: “O Brasil se destaca
no cenário mundial e a Bahia mantém características próprias se
comparada a outros Estados. Aqui, a miscigenação não teve conseqüências
apenas no aspecto físico, na aparência das pessoas, os costumes
populares também se diferenciam e por aqui é comum o relacionamento
entre religiões, a exemplo da Católica e do Candomblé” (apud
MAX, 1996, p. 13).
Enfim, Jorge Amado retrata uma sociedade baiana em que as diferentes
culturas se relacionam de maneira harmônica. Jorge Amado retrata
uma mistura social que faz de “[Ilhéus] uma terra em que existe
harmonia até no contraste” (BASTIDE, 1980, p. 14).
Tais observações são importantes para que se entenda o valor
cultural, social e histórico da obra deste escritor.
Nessa perspectiva, "indagar sobre as representações da cidade
[de Ilhéus] na cena escrita construída pela literatura [amadiana]
é, basicamente, ler textos que lêem a cidade, considerando não só
os aspectos físicos-geográficos (a paisagem urbana), os dados mais
específicos, os costumes, os tipos humanos, mas também a cartografia
simbólica, em que se cruzam o imaginário, a história, a memória
da cidade e a cidade da memória" (GOMES, 1999, p. 24). Assim, a
presença desses aspectos colhidos da realidade observada e vivida
acaba por marcar a identidade cultural da região.
A Ilhéus pintada por esse escritor faz-se presente nos romances
Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus e Gabriela,
cravo e canela. Nesses romances, o autor descreve a cidade desde
a época do desbravamento, conquista e luta pela posse das terras,
assim como o seu progresso e crescimento, apogeu e queda dos coronéis
e, até mesmo, a vida política e econômica. Pode-se dizer que Jorge
Amado faz mais do que uma descrição fotográfica, faz sim uma radiografia
da cidade de Ilhéus e de seu entorno, fazendas e matas.
Com os três romances citados, Jorge Amado “pintou”
as imagens de sua terra em momentos distintos, que vão da conquista
sangrenta das matas ao progresso que instaura a esperança de um
novo tempo. Foram essas imagens (de uma terra adubada com sangue,
povoada por coronéis rudes e mulheres sensuais), que Jorge Amado
levou para os quatro cantos do mundo. Foram essas imagens que fizeram
de Ilhéus a Terra da Gabriela, a Terra dos Coronéis do Cacau, a
Terra de Jorge Amado.
No entanto, são essas mesmas imagens que estão sendo banalizadas
com o passar do tempo. O Quarteirão Jorge Amado está sendo construído
e um de seus objetivos é valorizar a cultura e preservar a identidade
do local. Para tanto, seria importante sensibilizar e informar a
comunidade a respeito do valor cultural, social e histórico da obra
de Jorge Amado. É preciso conhecer para poder valorizar e preservar.
O mundo conhece Ilhéus através da obra de Jorge Amado. Os turistas
visitam a cidade e querem entrar em contato com a população local
e conhecer as histórias do lugar, porém, como já foi dito, a comunidade
não tem como dar tais informações por falta de conhecimento.
Diante disso, o questionamento feito por Ulpiano Meneses se faz
pertinente: “Como evitar que o turismo crie alucinações culturais,
[personagens que saem dos livros] apenas para atender as solicitações
externas de consumo?” (MENESES, 1999, p. 98). Talvez se as
pessoas tiverem maior conhecimento da história da cidade e dos romances
amadianos, será mais fácil respeitar a sociologia local, principalmente
aquela assentada nas relações de poder mais camufladas que ainda
existem na sociedade ilheense, isso em decorrência do poder e da
conseqüente decadência da monocultura do cacau. Afinal “um
povo conhecedor de sua cultura e de sua história é um povo que sabe
perpetuar seus costumes, suas tradições, suas lendas. É um povo
que aprende a preservar o patrimônio local porque reconhece um valor
intrínseco” (PASSEIO HISTÓRICO PARA ESTUDANTES, 2000, p. 7).
4. Planejamento turístico responsável e participativo –
uma solução possível
Como já foi dito, utilizar o patrimônio cultural, neste caso o
Quarteirão Jorge Amado, como atrativo turístico é uma maneira de
não só ajudar a manter a economia, como também ajudar a recuperar
a memória e preservar a identidade local. Sobre este assunto, comenta
Maria de Lourdes Netto Simões: “Carrear para atividade turística
esses aspectos culturais da literatura e da culinária, se, por um
lado, contribui para a nossa economia, por outro lado, é forma de
fazer uma atividade turística de valorização do cultural, estratégias
de preservação de nossa cultura, da nossa identidade” (SIMÕES,
2000, p. 10).
No entanto, o que acontece na realidade é uma grande falha nessa
estratégia, afinal de contas o Quarteirão está sendo explorado apenas
sob o ponto de vista mercadológico, a cultura está sendo usada pela
economia e, para que esta problemática seja solucionada, além de
sensibilizar e informar a população a respeito do valor cultural
do Quarteirão, é preciso também um planejamento turístico responsável
e participativo. De acordo com Margarita Barreto (2000, p. 15) “para
que patrimônio e turismo possam ter uma convivência saudável, é
necessário que haja planejamento, o que inclui controle permanente
e replanejamento”.
Desta forma, cabe ao planejador do turismo refletir sobre as
possibilidades de transformar o patrimônio num produto turístico
de qualidade e autêntico, que sirva para que não só aos visitantes,
mas também a comunidade local compreenda o presente através do conhecimento
de suas lendas e de sua história. Nesse planejamento, é importante
também que se promova benefícios para a comunidade local.
Para tanto, é necessário o envolvimento da população, pois ela,
junto com os planejadores – seguimento do poder público e
empresários – pode avaliar os impactos das atividades turísticas
sobre o ambiente em que vive. Sobre este assunto, afirma Bissoli
(1999, p. 36): “os cidadãos têm obrigação de se envolver com
o processo de planejamento turístico da municipalidade. Eles vivem
diariamente as causas, conseqüências e/ou efeitos do desenvolvimento
da atividade turística, seja qual for seu estágio de desenvolvimento”.
É com a ajuda da comunidade que o administrador (ou representante
do poder público) pode obter informações históricas e depoimentos
de vida de moradores mais antigos, o que pode, juntamente com a
ajuda de especialistas, historiadores e estudiosos de Jorge Amado,
ajudar a recriar os fatos que aconteceram no Quarteirão. Com este
tipo de ajuda, também fica mais fácil sensibilizar a comunidade
a respeito do valor cultural e histórico do Quarteirão Jorge Amado.
Assim, é possível valorizar e preservar a cultura, pois a comunidade
passa a conhecer o caminho que sua sociedade trilhou para chegar
ao ponto em que se encontra no momento, permitindo também que as
gerações futuras conheçam a sua história.
É nesse contexto que a idéia de desenvolvimento do turismo cultural
sustentável reforça a necessidade e preocupação de envolver a comunidade
no planejamento turístico. O conceito de desenvolvimento sustentável
engloba três princípios fundamentais: a sustentabilidade ecológica,
que permite às pessoas entender o valor daquilo que está sendo explorado
e compreender a importância do equilíbrio ambiental para a sua manutenção
para as gerações futuras; a sustentabilidade sociocultural, que
promove o bem estar das populações envolvidas, tem obrigatoriedade
de gerar benefícios para a comunidade e que mantém e reforça a identidade
da comunidade; e a sustentabilidade econômica, que promove a conservação
dos recursos naturais e culturais, valorizando-os econômica e financeiramente.
Assim, esses princípios dão suporte à idéia de que seja preciso
um planejamento responsável e participativo para que se evite o
uso apenas mercadológico do Quarteirão Jorge Amado.
De acordo com Lage & Milone (2000, p. 91) “o turismo
faz com que os recursos mereçam ser preservados e protegidos porque
representam o futuro e as condições de vida para as novas gerações”.
No entanto, para que se tenha sucesso e para que se pratique um
turismo com base na cultura é preciso que haja planejamento, conhecimento
e apoio por parte da população local.
5. Considerações Finais
Diante da problemática do uso da cultura como atrativo turístico
de Ilhéus – o que abrange aspectos relacionados à preservação
e revitalização dos bens patrimoniais que fazem parte do Quarteirão
Jorge Amado – deve-se sempre ter em mente que o ideal é que
se faça um turismo com base na cultura e não “usá-la”
apenas para atrair o turista, apenas sob o ponto de vista mercadológico.
Se a idéia é revitalizar para preservar a memória e a identidade
cultural, então é preciso que a comunidade esteja envolvida no processo
de planejamento turístico e que se criem ações e programas turísticos
que contem a história do local. Por exemplo, ao invés do turista
circular pelo Quarteirão enquanto o guia dá as informações sobre
o local, a comunidade poderia participar encenando partes dos romances,
fatos históricos ou a vida das pessoas que moravam nos casarões.
É necessário um trabalho cooperativo entre todos os profissionais
envolvidos na área do turismo e que se estabeleça parceria não só
com a comunidade, mas também com o Governo e com outras instituições
da sociedade. Dessa forma, promover encontros e reuniões junto às
escolas, às associações de bairros, às associações comercias, com
o objetivo de sensibilizar sobre a importância da preservação do
patrimônio cultural, dos hábitos, dos costumes e das tradições,
pode ser o primeiro passo para que todos tenham conhecimento e respeito
por sua cultura e assim possam dar o verdadeiro valor ao Quarteirão
Jorge Amado.
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| SWARBROOKE, John. Turismo Sustentável
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Krieger. São Paulo: Aleph, 2000. |
NOTAS
* Trabalho apresentado no Seminário Vamos Conhecer a
Nossa História, realizado no Teatro Municipal de Ilhéus, no dia
14/03/2003
** Mestranda em Cultura & Turismo pela Universidade
Estadual de Santa Cruz, bolsista da Fundação de Amparo à pesquisa
no Estado da Bahia-FAPESB
1 Concepção de cultura segundo
Singer (1968 apud RUSCHMAN, 1997, p. 50) “A cultura de um
povo é entendida como os padrões explícitos ou implícitos dos comportamentos,
adquiridos ou transmitidos por símbolos, que constituem o patrimônio
de grupos humanos, inclusive sua materialização em artefatos. O
aspecto mais importante de uma cultura reside nas idéias tradicionais
de – origem e seleção histórica – e, principalmente,
no seu significado”.
2 Patrimônio cultural, segundo
Margarita Barreto (2000, p. 11) inclui não apenas os bens tangíveis
como também os intangíveis (por isso, o conceito de “legado
cultural” parece mais adequado do que “patrimônio”),
não só as manifestações artísticas, mas todo o fazer humano, e não
só aquilo que representa a cultura das classes abastadas, mas também
o que representa a cultura dos menos favorecidos.
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