O "EU" E "OUTRO": O TURISMO ÉTNICO NO GRUPO INDÍGENA POTYGUARA DA PARAÍBA
- NORDESTE BRASILEIRO.
José Glebson Vieira[1]
Resumo:
Um dos objetivos do presente trabalho é expor a partir de uma experiência etnográfica
junto ao grupo indígena Potyguara da Paraíba, uma "situação histórica"
de contato interétnico. Pretendo entender de que modo o referido grupo define
a relação com o "outro" tomando como foco analítico o turismo étnico. Para tanto,
discutirei a ação do poder público, em termos de marketing, cuja hipótese é
de que o marketing se apropria dos referenciais históricos e culturais do grupo
indígena. Por conseguinte, atentarei para o papel de empreendedor dos próprios
índios na situação de contato; a hipótese é de que os índios são empreendedores
do turismo pela produção simbólica de artesanato, pela comemoração do dia do
índio e pela realização da festa de S. Miguel.
Do encontro das correntes fluviais dos rios Camaratuba e Mamanguape com
as quentes e claras águas do Oceano Atlântico nasce uma baía, historicamente
denominada de traiçoeira devido aos seus longos e escorregadios arrecifes que
saem da costa até o alto-mar, dificultando o ataque rápido dos invasores e servindo
de proteção às populações do continente. Ela também é chamada de traiçoeira
pelas alianças dos nativos com os franceses e holandeses a fim de impedir a
entrada dos portugueses, bem como por incidentes que ocasionaram mortes de membros
das armadas portuguesas pelos índios. Estamos falando da Baía da Traição, antiga
Acajutibiró[2], lugar onde estão
grande parte dos índios Potyguara da Paraíba. A baía traiçoeira foi o palco
do encontro dos Potyguara com o "branco".
A curiosidade, um dos elementos
que se destacou do confronto com alteridades, marcou realmente os primeiros
discursos, as primeiras crônicas daqueles que chegaram no Novo Mundo com fortes
interesses comerciais e religiosos, mas que dado a surpresa de descobrir novas
formas de sociedade e culturas que até pareciam não serem humanas puderam, a
partir de posições bem distintas retratar uma realidade inteiramente exíotica,
como é por exemplo o jesuíta Anchieta, o huguenote Léry, o colono português
e escravizador de índios Gabriel Soares de Sousa, o artilheiro e prisioneiro
dos Tupinambá Hans Staden, dentre outros.
Após 500 anos, é na mesma
baía que percebemos a persistência do confronto entre alteridades, tendo ainda
na curiosidade um forte ingrediente das relações de contato, bem como da visão
que ainda compartilhamos em relação aos autóctones. Estou me referindo a prática
do turismo étnico.
Por volta da década de 80, o Governo do Estado da
Paraíba lançou um programa de desenvolvimento tendo como campo de ação as regiões
litorâneas que possuem um alto potencial para a prática do turismo. O turismo
sendo pensado como um investimento econômico capaz de incrementar a economia
dos municípios litorâneos e do Estado. O complexo turístico implantado pela
PBTUR, incorporou a cidade de Baía da Traição-PB como um dos lugares para estação
de veraneio. Isto se deveu ao fato da cidade se localizar à beira-mar e possuir
muitas riquezas naturais. No ano de 95 a consolidação da região como lugar de
turismo se deu com o asfaltamento do trecho da PB-041 (24 km) ligando Rio Tinto
a Baía da Traição. De um lado, as riquezas naturais contribuíram para o marketing.
Do outro, a existência de "uma única reserva indígena", constitui um outro atrativo
para região, despertando a curiosidade de turistas para o exótico, ou melhor
para os "sobreviventes" e descendentes dos primeiros habitantes do Brasil.
O complexo turístico implantado
pela PBTUR, incorporou a cidade de Baía da Traição-PB[3]
como um dos lugares para estação de veraneio. Isto se deveu ao fato da cidade
se localizar à beira-mar e possuir muitas riquezas naturais e estar situada
entre as cidades de João Pessoa-PB e Natal-RN na BR 101.
No ano de 95, a consolidação
da região, como lugar de turismo, aconteceu com o asfaltamento do trecho da
PB-041 (24 km) ligando Rio Tinto a Baía da Traição[4], cujo percurso começa a ser realizado
em terras tradicionalmente habitadas pelos Potyguara[5].
Em meio as plantações de cana-de-açúcar, há placas da FUNAI indicando que ali
são terras oficialmente reconhecidas como de direito dos Potyguara.
O despontar da cidade como
lugar de turismo implicou em uma corrida imobiliária a ponto do perímetro urbano
"invadir" a Terra Indígena, uma vez que houve construção maciça de casas pela
classe média regional, proveniente das cidades de João Pessoa, Campina Grande
e Guarabira e na estação de veraneio a população da cidade aumenta em torno
de 70%. O problema que surge hoje é como gerenciar o crescimento da cidade dentro
de uma Terra Indígena. O crescimento se deu pela construção de hotéis e pousadas,
bem como de restaurantes, lanchonetes, bares, dentre outros.
Este ensaio pretende, apresentar o modo pelo qual
o poder público constrói uma imagem da cidade de Baía da Traição, como praia
histórica e o lugar onde se pode encontrar um grupo indígena "em reserva". Ao
mesmo tempo, procura entender de que modo os Potyguara definem a relação com
o "outro" a partir do turismo. Trabalho com a hipótese de que os Potyguara são
os empreendedores do contato, no sentido de que eles participam do turismo promovendo
inovações, o que nos leva a refletir o turismo através da inserção e
da leitura nativa sobre este evento.
BREVE HISTÓRICO DOS POTYGURA
Do ponto de vista dos cronistas e viajantes, o grupo indígena Potyguara,
localizado no costa litorânea do Nordeste brasileiro, não apenas se enquadravam
na categoria "gentios bravos", justificando-se assim a necessidade de "amansá-los",
como foram se constituindo, ao longo das tentativas de colonização da região,
entraves à exploração portuguesa.
Após longos e sangrentos conflitos envolvendo os Potyguara e os invasores
(portugueses), a região compreendida entre os Estados de Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Ceará foi conquistada (cf. Dantas et alli,1992)[6].
Mas a paz duraria até a chegada dos franceses e sua aliança com os Potyguara
que com "eles contratarão (...) casando com suas filhas" (Cardim, 1939:101-102).
Tal como nos relata Frei Vicente do Salvador (1975:224-225), logo no séc.
XVI, os franceses se tornaram "amigos" dos Potyguara. A presença francesa na
região afrontava o interesse da Coroa Portuguesa, a qual via o comércio do pau-brasil
como altamente lucrativo, voltado para a tinturaria de lã e seda, para a construção
de navios e a fabricação de móveis preciosos. Para pôr fim ao lucrativo comércio
dos franceses, a idéia foi conquistar e povoar o território ocupado pelos Potyguara.
Segundo o religioso, o período que se seguiu foi marcado por uma sangrenta
guerra, aprofundada com a chegada de alguns navios franceses na Baía da Traição,
carregados com muitas pessoas e também munição e com o objetivo de se juntarem
aos Potyguara a fim de combater os portugueses. Frei Vicente indica haver na
Serra da Copaoba cinqüenta aldeias Potyguara, as quais foram totalmente destruídas
pelos portugueses e pelos Tabajara, seus aliados.
A derrota dos Potyguara ocorreu em meio à morte de índios nas aldeias de
Baía da Traição e a expulsão dos franceses no ano de 1584 e após uma epidemia
de varíola ter dizimado a sua população (Moonen, 1986:86). Os índios ficaram
sob os cuidados dos padres da Companhia de Jesus (Dantas et alli,1992:438).
Em 1591, os jesuítas foram expulsos. Os Potyguara passaram a ser catequizados
pelos carmelitas (Hemming, 1978:169 e Baumman, 1981 citado por Moonen, 1992:159).
A paz duraria pouco. No ano
de 1625 desembarcaram na Baía da Traição os holandeses, os quais levaram consigo
alguns índios Potyguara. Segundo Hemming (1978:287-288), a Companhia das Índias
Ocidentais incentivou a política de levar jovens índios para a Holanda, no sentido
de estabelecer relações amigáveis com os grupos autóctones.
Quando efetivamente ocorreu
a conquista holandesa no Brasil, os jovens índios já falavam o holandês e estavam
convertidos ao calvinismo. Eles retornaram ao Brasil a fim de fazer a mediação
entre os holandeses e os índios; eles trabalharam como intérpretes e como testemunhas
do poder esplendoroso da Holanda (Hemming, 1978:288). Pedro Poti foi o que mais
se destacou dentre os jovens levados para a Holanda; segundo Hemming (1978:288),
este jovem aglutinou nos contigentes holandeses alguns guerreiros Potyguara,
escrevendo cartas eloqüentes no sentido de persuadir outros chefes para se aliar
aos holandeses.
Segundo Hemming (1978:289),
Maurício de Nassau era um administrador liberal, tolerante para minorias, principalmente
quando elas poderiam ajudar a viabilidade da administração holandesa no Brasil.
Os holandeses permitiram a permanência nas vilas, dos chefes indígenas, deixando
também um comandante holandês, cuja tarefa principal era animar os índios para
o trabalho, incentivando-os à melhoria as plantações da cana-de-açúcar; em troca,
os índios recebiam tecidos (Hemming, 1978:289).
Nas palavras de Maurício
de Nassau (cf. Mello 1978:200, citado por Moonen, 1986:86) "da amizade dos índios
depende em parte o sossego e a conservação da colônia no Brasil e que se tendo
isto em vista, deve-se-lhes permitir conservar a sua natural liberdade, devendo
permitir-se a cada um viver de modo que entender e trabalhar onde quiser, como
os da nossa nação".
Com a expulsão holandesa
em 1654, ocorreu definitivamente a pacificação dos índios Potyguara. Em regime
de aldeamento, o grupo passou a constituir as aldeias de Baía da Traição e da
Preguiça no município de Mamanguape, ambas sob a responsabilidade espiritual
da missão carmelita. Na primeira invoca-se como protetor São Miguel e na segunda
N. Sra. dos Prazeres. A instituição dos santos, pelos missionários, como protetores
dos índios passou a fazer parte das crenças Potyguara. Anualmente, o grupo se
mobiliza para festejar S. Miguel invocado como "o dono das terras do índio"
(Sr. Francisco Vital, 60 anos), e portanto, "o padroeiro dos Potyguara"
(Sr. José Barbosa, 84 anos). Já a invocação de N. Sra. dos Prazeres é revivida
na festa realizada na Vila de Monte-Mór (antiga Vila Preguiça)[7].
Após a pacificação e o aldeamento
dos Potyguara da Paraíba, no início do séc. XVII, não se encontram registros
do grupo. Somente no séc. XX os Potyguara "reaparecem".
No ano de 1865, foi enviado
à Paraíba o engenheiro Justa Araújo para proceder à demarcação das terras dos
Potyguara. Tal demarcação tomaria por base os marcos de pedra estabelecidos
na época da doação de terras por D. Pedro II. A demarcação da terra começou
pelo aldeamento de Monte-Mór. A terra foi dividida em lotes individuais, doados
às famílias que ali residiam não levando em consideração os critérios culturais
de posse coletiva e contribuindo decisivamente para a desagregação do grupo.
Isto aconteceu devido principalmente ao fato de que grande parte dos títulos
foi perdida com o tempo, e aos poucos passou para domínio de terceiros. Muitos
títulos foram parar na mão do grupo Lundgren, proprietário da Companhia de Tecidos
Rio Tinto, filial da Companhia de Tecidos Paulista do Estado de Pernambuco,
conhecido nacionalmente pela rede de lojas "Casas Pernambucanas", dificultando
ainda mais a efetivação da posse da terra pelos índios (cf. Moonen, 1986).
Não sei se por sorte, mas
dois fatos evitaram o loteamento das terras da antiga sesmaria de Baía da Traição.
O primeiro foi o falecimento de Justa Araújo, engenheiro nomeado pelo rei do
Brasil, no ano 1868, e o segundo a não nomeação de outro engenheiro para proceder
na demarcação. O resultado é que as referidas terras não foram loteadas, ficando
a propriedade de uso coletivo.
Ao lado do "esquecimento"
ou da "ausência" de registros históricos sobre os Potyguara e seu aparecimento
causal no séc. XIX, assistimos no início do séc. XX, o reforço das investidas
dos Governos estaduais para deslegitimar os aldeamentos na sua jurisdição.
Em 1919, o governo da Paraíba
colocou à venda as terras dos índios Potyguara. Este fato não se concretizou
graças à intervenção de José Campelo Galvão (cf. Moonen, 1986). Tal intervenção
não só impediu a venda das terras indígenas como tornou visível ao órgão tutor
(o então SPI) a existência de índios na Paraíba.
Em dois momentos o SPI enviou
dois funcionários com o intuito de comprovar a existência de índios na Paraíba:
o primeiro, Alípio Bandeira em 1920 e o segundo Dagoberto Castro e Silva enviaram
relatórios ao órgão tutor, descrevendo como o grupo estava organizado em termos
de ocupação territorial, o tipo de organização das residências, a atividade
econômica desenvolvida, o tipo físico das pessoas, o modo de organização política
e a maneira como o contato com a "civilização" influenciou o seu modo de vida.
Um dos pontos mais enfatizados
pelos relatores diz respeito às perdas advindas do contato e à incorporação
de costumes da "civilização ocidental". Eles mencionam a perda da língua original,
o fato dos índios freqüentarem as vilas e cidades, terem suas residências semelhantes
às dos vizinhos sertanejos e participarem nas intrigas da vizinhança, construírem
casas como os regionais e serem consumidores de produtos de vendedores[8].
Na década de 30 foi fundado
um posto indígena para "assistir" o grupo indígena Potyguara na Paraíba. Denominado
de Nísia Brasileira, o referido posto foi instalado na aldeia São Francisco,
sendo posteriormente transferido para a aldeia do Forte com vista esplêndida
sobre a praia e o mar. Na década de 60 com o fim do SPI e criação da FUNAI o
PI Nísia Brasileira passou a ser chamado de PI Potiguara, hoje é PIN Potyguara.
Atualmente, os
Potyguara tem uma população estimada em 6220 habitantes, distribuídos em três
Terras Indígenas (TI), são elas: a TI Potyguara, a TI Jacaré de São Domingos
e a TI Potyguara de Monte-Mór. O território ocupado pelos Potyguara tem uma
extensão de 26270 ha demarcados e homologados, sendo 21238 ha da primeira área
e 5032 na segunda, já a terceira, 4500 ha foram apenas demarcados, aguardando
homologação (cf. Atlas, 1993).
A população Potyguara
encontra-se distribuída em três municípios do Estado da Paraíba constituindo
trinta e duas aldeias. Na TI Potyguara há dezessete aldeias: Acajutibiró, Bemfica,
Bento, Cumarú, Estiva Velha, Forte, Galego, Laranjeira, Regina, Santa Rita,
São Francisco, São Miguel, Sarrambi, Silva da Estrada, Tapuio e Tracoeira (município
de Baía da Traição), Brejinho, Caieira, Camurupim, Camurupim, Carneira, Grupiúna
de Baixo, Jacaré de César, Nova Esperança, Tramataia e Val (município de Marcação)
e Silva de Belém (município de Rio Tinto); duas aldeias na TI Jacaré de São
Domingos: Grupiúna de Baixo e Jacaré de S. Domingos (município de Marcação);
e três na TI Potyguara de Monte-Mór: Brasília e Lagoa Grande (município de Marcação)
e Jaraguá (município de Rio Tinto).
AS ALDEIAS POTYGUARA
Todas as aldeias Potyguara, com exceção da Vila São Miguel, estão localizadas
próximas a cursos d'água, seja rios, riachos ou córregos. Em termos de terras
para atividades agrícolas, os moradores das aldeias utilizam terrenos mais elevados,
em geral, pedregosos com vegetação rasteira ("ariscos") e terrenos molhados
("paúl").
Os terrenos mais elevados são, em geral, pedregosos com vegetação rasteira.
Neles, as atividades de cultivo da terra são iniciadas com a chamada "coivara".
Em meio aos troncos queimados nos "ariscos" planta-se, entre os meses
de dezembro e janeiro, a mandioca, o principal produto da região. Em janeiro
é feito, também, os plantios de feijão e milho. Considerando que os tabuleiros,
os "ariscos", constituem "terreno enxuto", as atividades de manejo
e cultivo do solo são realizadas na estação mais chuvosa do ano (entre os meses
de dezembro e abril). Na parte oeste da terra Potyguara, os "ariscos"
se caracterizam pelo solo argiloso, o chamado massapê, potencializando o cultivo
da cana-de-açúcar, outro produto agrícola importante na economia da região.
Já nas várzeas e campinas ou nos terrenos baixos e planos - o "paúl"
-, margeando rios e córregos, a vegetação contrasta com aquelas típicas dos
"ariscos". Os referidos terrenos são bastante férteis considerando sua
permanente umidade. Na estação chuvosa (entre os meses de dezembro a abril),
as várzeas ficam demasiadamente molhadas, impedindo o plantio de culturas próprias
de "ariscos", como o milho e o feijão. Independente de estar ou não
na estação chuvosa, cultivam-se hortaliças (alface, repolho e coentro) e algumas
fruteiras (bananeiras e coqueiros). Na estação seca (meses de junho à novembro)
é comum o plantio de mandioca, feijão e milho.
Nas aldeias, a maioria das
residências estão alinhadas seguindo o princípio do paralelismo[9];
outras, em menor quantidade, se aglomeram fora das linhas paralelas onde os
fundos de umas são os pátios fronteiros de outras. No ponto mais central, de
algumas aldeias, há uma Igreja Católica e à sua frente, um cruzeiro. Há geralmente
uma mercearia, destinada à venda de gêneros alimentícios e produtos de limpeza,
uma escola de ensino básico mantida pela Prefeitura do Município em convênio
com a FUNAI[10], e campos de futebol.
Na seqüência e no aglomerado
de residências, o padrão é que residam o casal-chefe e alguns dos descendentes
diretos, isto é, os(as) filhos(as) solteiros(as) que moram na mesma residência
do casal-chefe e os(as) filhos(as) casados(as) que residem nas proximidades
do casal-chefe.
Na residência moram a família
conjugal monogâmica, um casal e os filhos solteiros. H7á casos em que na mesma
residência mora um outro casal, em se tratando de uma filha casada. Esta é uma
situação recorrente, porém temporária. A tendência pós-marital é que o casal
resida junto à família da esposa, - residência uxorilocal. Isto se aplica na
relação entre quem é 'de dentro' (índio) e quem é 'de fora' ("particular"[11]).
Em torno da residência do
casal-chefe, é comum os filhos levantarem as suas próprias residências. Quando
a esposa mora na aldeia e o seu grupo se reconhece como índio, a tendência é
o rapaz deixar o grupo doméstico do casal-chefe. Em relação às filhas, a residência
também depende da posição do parceiro: se o parceiro é "particular" a
tendência é que o casal more ou com o casal-chefe ou construa a sua própria
casa próxima da casa do pai da esposa (sogro); quando o parceiro é 'do lugar',
isto é, mora na aldeia e é índio, a tendência é a esposa residir próximo do
pai do esposo.
Há uma correspondência entre
a situação de agrupamento das residências e a definição do acesso às terras
para o cultivo agrícola. Cada família utiliza uma porção de terra comum no "arisco"
e no "paúl". Os roçados e os "sítios" são identificados pelo nome
do casal-chefe. Há uma recorrência na "separação" destas terras do casal-chefe
pelos(as) filhos(as), especialmente quando o casal-chefe utiliza uma maior porção
de terra. A tendência é que os roçados e os "sítios" se mantenham próximos.
Nos "sítios", os moradores das aldeias plantam outras fruteiras, constituindo
um bem que pode ser vendido ou herdado, dentre elas, podemos citar os coqueiros,
as mangueiras, as jaqueiras, as bananeiras e os abacaxizeiros. Já nos roçados
cultiva-se especialmente milho, feijão, batata, jerimum, mandioca e macaxeira[12].
Em alguns casos observados
especificamente na aldeia Galego, embora haja uma 'separação' dos roçados, a
'casa focal' continua sendo uma unidade, especialmente porque nela permanece
a cooperação no sentido de circulação dos bens produzidos e troca de serviços
pelos membros do 'pátio' e o valor de referência parental.
O MARKETING E A LEITURA NATIVA DO TURISMO
Nos materiais de divulgação
da região, organizados pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de B. da Traição,
as belezas naturais (coqueirais, mar, praia, arrecifes, mangues e rios) são
destacadas como atrativos para os turistas. Ao lado disso, a divulgação e apresentação
do complexo turístico de Baía da Traição utiliza como estratégia de marketing,
a existência da única reserva indígena da Paraíba.
O fato de ainda existir índios
no litoral da Paraíba constitui um outro atrativo, despertando a curiosidade
de turistas para os "sobreviventes" ou os descendentes dos primeiros habitantes
do Brasil. É ressaltado o fato da Baía da Traição ser uma cidade histórica porque
nas suas praias aconteceram inúmeros conflitos e alianças envolvendo os Potyguara
e os colonizadores; ressalta-se ainda a existência de canhões trazidos pelos
franceses e a edificação da Igreja de S. Miguel, datada do séc. XVII pelos holandeses
(os brancos amigos dos índios).
A imagem do índio Potyguara
se confunde, num primeiro momento, com a história da colonização portuguesa,
ficando, portanto, vinculada ao passado da colonização e do "descobrimento"
do Brasil. Num segundo momento, ela se define a partir da situação de sobreviventes
e de vítimas do colonizador, exprimindo-se pelas expressões "índio em reserva"
e "índio aculturado", apontando para a idéia de índio isolado e passivo ao contato.
O marketing do turismo, portanto,
articula a presença ou a sobrevivência de um grupo indígena "em reserva", com
o fato de ser o único existente na Paraíba e ser o mais populoso da região Nordeste.
Ao mesmo tempo, as perdas culturais são justificadas por se tratar de um dos
primeiros grupos a serem contatados pelo colonizador.
A impressão é que o tratamento
dado aos índios Potyguara como sobreviventes "em reserva", é de uma relação
passiva ao contato com o branco. Em outros termos, os índios, na situação de
"reservados" encontram-se "isolados" ou sob vigilância, sendo portanto colocandos,
ao nível de representação, numa posição de imobilidade.
Pretendo concebê-los como
empreendedores do contato e também do turismo, como aquele que é capaz de
inovar. A capacidade de inovar pode ser tematizada, tanto no âmbito interno
quanto externo, onde a inovação tende a ser produzida dentro de um contexto
situacional ou empírico (o turismo), a partir de um repertório simbólico específico.
Configura um processo de "confronto de tradições" possibilitando uma combinação
de identidades, tradições e estilos dentro de mercados que estão em constante
internacionalização. É possível, então, que a inovação, ao ser produzida pelo
índio, configure um diálogo com a tradição.
Conceber os Potyguara como
empreendedores do turismo remete para o próprio modo como eles estão se inserindo
no contato interétnico, qual seja, de fazer uma leitura simbólica do "outro"
e do contato, configurando distanciamentos significativos. Esta pressuposição
pode ser verificada em primeiro lugar, pelo interesse em produzir artesanato
para venda, em segundo pela comemoração do dia do índio em 19 de abril e pela
realização da festa de S. Miguel.
Segundo alguns índios Potyguara,
o artesanato era voltado, há vinte anos atrás, estritamente para o uso cotidiano.
Na memória do grupo eram fabricados para este fim, objetos de cerâmica (panela,
torradeira, tigela, alguidar e pote); trançados para uso e conforto doméstico,
(janelas e portas), para caça e pesca, para o processamento da mandioca (urupema)
e como meio de transporte e carga (cangalha, samburá para voador, esteira, caçuá,
canoa e remo); adornos plumários (braçadeira e tornozeleira); objetos sonoros
(flauta, maracá, tambor de pele); e utensílios de madeira (pilão, cuia, colher
de pau, escumadeira). Além da fabricação de cestas para o acondicionamento de
alimentos e para guardar objetos (roupeiros, vassouras, potes para plantas e
jarros).
Percebe-se também que já neste
período acontecia a fabricação de colares, pulseiras, anéis, arcos e flechas
com o fim de uso dos próprios índios. Só que estas peças de artesanato tem hoje
também a finalidade mercantil. O artesanato atende, de um lado, as expectativas
do próprio artesão de aumentar a renda da família e de afirmar para si e para
o grupo a identidade indígena, e de outro a expectativa do turista de encontrar
produtos típicos da região e da cultura dos índios.
O artesanato aparece como
um elemento importante para pensarmos uma questão de fundamental importância
no caso Potyguara. Trata-se da indagação de quem produz e vende o artesanato,
considerando que a produção e a venda do artesanato entre os Potyguara guardam
uma relação muito próxima com a posição que o artesão ocupa dentro do grupo;
posição essa definida a partir da oposição puro e misturado, que por sua vez,
guarda uma estreita relação com o modo pelo qual os índios Potyguara definem
o tempo e o espaço[13].
Desse modo, para entendermos
o lugar do artesanato no grupo é preciso fazermos uma pequena digressão com
o objetivo de esclarecer a percepção nativa acerca do tempo e do espaço. De
acordo com o discurso nativo, a chegada dos brancos ao Brasil no ano de 1500
é o marco do discurso Potyguara sobre a alteridade. O branco significou mudança
no espaço, visualizado particularmente pela criação do aldeamento a que os índios
foram submetidos, em detrimento da vasta extensão de terra habitada pelos Potyguara
antes de 1500[14], bem como das modificação do nome da atual
cidade de Baía da Traição; antes a região era chamada de Akajutibiró, que quer
dizer, terra do caju azedo[15].
Ao se referir à Baía, as narrativas
dos índios traduzem a idéia de encontro, não apenas pela definição 'natural'
da região, isto é, uma reentrância na costa que se alarga para o interior, mas
também aos incidentes de conflito entre nativos autóctones e invasores portugueses
e a dificuldade enfrentada pelos portugueses em consolidar a colonização na
então Capitania de Itamaracá.
A terra, enquanto referência
espacial, traduz a memória do lugar onde os pais nasceram, foram criados e criaram
seus filhos. Assim, a garantia do acesso à terra decorre da posição da pessoa
dentro do grupo, cujos parâmetros são: descender, morar e trabalhar na terra,
ligando pessoas por meio da transmissão do direito de posse, exprimindo o vínculo
de parentesco com os antigos moradores "do lugar".
Neste sentido, o espaço da aldeia se constitui, segundo a lógica de transformação,
como uma possibilidade de vida em sociedade diferente daquela dos antepassados.
Segundo o ponto de vista nativo, os antepassados viviam em cabanas espalhadas
pelo meio do mato. Não se sabe ao certo o momento, mas os índios afirmam que
a causa da concentração de residências se deve a iminência de invasão da terra
pelos brancos. Assim, o discurso trabalha com a idéia de tempo em transformação
e portanto da oposição entre o passado, marcado pela dispersão do grupo no meio
do mato, e o presente caracterizado pela concentração de pessoas em aldeias.
Se a terra aponta para a dimensão
espacial do parentesco, a dimensão temporal é revelada pelo idioma do sangue
(a substância), muito presente nas narrativas dos índios Potyguara. O idioma
da substância se cristaliza na idéia de origem comum dos corpos e das identidades
pessoais. O sangue conecta as identidades pessoais aos parentes ancestrais,
ligando os distintos grupos do presente aos das gerações anteriores. Desse modo,
ele define o parentesco, dividindo as gerações e unindo-as pelo princípio da
consubstancialização.
A recorrente "mistura de
sangue" entre os Potyguara estabelece, dentre outras coisas, uma diferenciação
entre o estilo de vida atual e o modo de vida dos antigos. Neste sentido, a
ideologia da mistura tende a despertar o interesse em preservar e recuperar
os traços culturais perdidos ao longo do contato.
Portanto, o sangue constitui
o referencial nativo capaz de explicar as diferenças objetivas e subjetivas
entre o grupo de pessoas que comungam a "identidade de substância", para usar
um termo de Viveiros de Castro (1986) e o que não tem sangue de índio.
Diferentemente do passado, o presente é marcado pelo interesse, pela luta
dos direitos de reconhecimento como grupo distinto. Os Potyguara buscam uma
aproximação do presente ao passado pela idéia de pureza. Mas tal idéia, que
se contrapõe à prática quotidiana da mistura de sangue (casamento e residência
dos "particulares" na aldeia) termina por criar um afastamento entre
os "caboclos legítimos", que são concebidos como "puros de sangue" e
os "índios misturados", já marcados pela entrada de "sangue de outra raça"
(Ivonete, residente na aldeia Regina)[16].
Estabelece-se, portanto, uma
diferenciação entre as etapas históricas (o passado e o presente) pela articulação
de dois discursos claramente excludentes, o da pureza e o da mistura (impureza?).
Na verdade, estes discursos tendem a produzir uma hierarquização de posições
e de estatutos sociais. O discurso em torno da reprovação da mistura se articula
com o discurso da necessidade de recuperar os traços perdidos (discurso da aculturação).
Particularmente, tal articulação está presente nas falas dos índios considerados
como puros, residentes principalmente nas aldeias S. Francisco e Regina, aldeias
onde são produzidos grande parte do artesanato Potyguara. Na aldeia Galego produz-se
também artesanato por um artesão considerado como "caboclo legítimo".
Desse modo, o interesse pelo
artesanato voltado para a comercialização acabou por constituir uma prática
que exprime uma lógica simbólica específica, suscitada pela oposição pureza
e mistura. Ao mesmo tempo, tal interesse acabou por configurar um símbolo demarcador
da especificidade cultural do grupo. É comum ver os turistas procurando adquirir
produtos de índio tais como colares, anéis e pulseiras, ao mesmo tempo que é
comum ver os índios exibirem estes objetos nas brincadeiras do Toré no dia do
índio especialmente.
*
* *
O dia do índio é apresentado
pelo poder público como sendo uma manifestação folclórica dos índios de Baía
da Traição, mas a leitura simbólica tem uma conotação peculiar para os próprios
índios. 19 de abril é dia um especial, porque os Potyguara brincam o Toré que,
enquanto ritual, possibilita ao grupo atualizar os seus valores e as visões
de mundo veiculadas no discurso e também reforçar as concepções de um passado
(mítico?) de índios arredios, do índio da mata, da luta incansável pela sobrevivência
seja no mangue, nos roçados, seja no mar, da partilha comunitária; nas cantigas
do Toré, os valores de índio puro, do caboclo da jurema, do tapuio canindé fazem
parte da cosmologia que é cantada e representada na dança.
Não só as cantigas mas o próprio
local onde ocorre o Toré no dia 19 de abril já traz em si as representações
que vão ao longo do dia serem ressemantizadas.
Apesar de todos já saberem
que haverá "representação do Toré", a exemplo do que acontece nas festas
religiosas, o "cacique geral" visita as residências do S. Francisco,
convidando os moradores a participarem das comemorações do dia do índio; nas
demais aldeias, o convite é feito pelo "cacique da aldeia".
Mas o Toré do dia 19 de abril
começa muito antes. Os "caboclos do Sítio" preparam o lugar da festa,
o ouricouri, situado próximo à aldeia S. Francisco (cerca de 500m de distância),
em meio a uma mata e próximo das furnas. Faz-se a limpeza do ouricouri retirando
todo o mato rasteiro. Depois da limpeza, são construídas duas "ocas",
feitas de palha de coqueiro, sem divisão interna; entre as furnas e o ouricouri
é aberto um caminho e este é enfeitado com palhas de coqueiro, armadas formando
uma passarela.
As lideranças do S. Francisco
contatam o prefeito de Baía da Traição e o chefe do posto da FUNAI para aquisição
de um carro de som e de carne e bebida que serão consumidas pelos índios durante
as comemorações.
É chegado o dia 19 de abril.
Logo cedo, a movimentação nas aldeias aumenta, com a preparação das vestimentas
do Toré e o tráfego nas estradas: são pessoas "de fora" que vem para o ouricouri
ver a dança dos índios.
Enquanto isso, as "ocas"
estão sendo preparadas para receber os visitantes. Em uma delas, são expostas
fotografias de outras comemorações do dia do índio no ouricouri, dos encontros
que as lideranças participaram e da dança do Toré em outros lugares: João Pessoa,
Natal, Campina Grande, Belém, dentre outros; na "oca" há um outro espaço
destinado à venda de artesanato (colares, brincos, anéis, flechas e arcos) e
de camisas com fotografias das praias de Baía da Traição, com mensagens alusivas
a "Acajutibiró: terra dos índios Potyguara", bem como fotografias de
mulheres e crianças indígenas.
Na outra "oca" as
mulheres do S. Francisco trazem as carnes assadas e cozidas, arroz, feijão e
macarrão e as bebidas (catuaba, refrigerantes e cachaça) para serem partilhadas
no horário do almoço. Um detalhe interessante é que parte da bebida começa a
ser consumida pelos índios do S. Francisco antes do início do Toré nas suas
próprias residências.
Os índios do "Sítio"
começam a se preparar para o Toré em suas residências; fazem pinturas no rosto,
nos braços e na parte superior ao abdômen, vestem a saia do Toré e colocam colares
e braceletes. Na seqüência, o casal e os seus filhos solteiros, que moram na
mesma casa, se dirigem para as furnas, lugar onde são feitos os últimos retoques
na pintura e nas vestimentas e onde é aguardada a chegada dos outros índios
da aldeia que irão participar do Toré.
Todos já devidamente pintados
e vestidos para o Toré, caminham das furnas em direção ao ouricouri, cerca de
30 m. À frente, o "cacique geral", a sua esposa e os filhos pequenos,
um pouco mais atrás alguns "caciques da aldeia" e outras lideranças
indígenas e mais atrás os demais índios. Todos caminham lentamente, tocando
o zabumba, a flauta e os maracás, mas não cantam. Nesta caminhada é mais comum
a participação dos índios do S. Francisco.
No ouricouri, outros índios,
de diferentes aldeias, aguardam a chegada dos "caboclos do Sítio" e das
lideranças. Vale salientar que, diferentemente das festas de padroeiro, o Toré
do dia 19 de abril consegue reunir índios de todas as aldeias. Encontram-se
também no ouricouri, os "visitantes" não índios, dentre os quais, o pároco de
Baía da Traição e outros religiosos(as) que logo em seguida dirigem a celebração
de uma missa.
Dentre os não-índios, um
outro conjunto de pessoas se destaca: são crianças e adolescentes, vindos em
caravanas com professores de escolas públicas e privadas de Mamanguape, Rio
Tinto, Mataraca, Itapororoca, Guarabira, dentre outras. Além deles, participam
da festa, os membros de instituições públicas que desenvolvem trabalhos nas
aldeias, dentre elas, a FUNAI, FUNASA, Secretaria Estadual de Educação, Universidade
Federal da Paraíba, Secretaria Estadual do Trabalho.
Após a missa, o "cacique
geral" convida algumas lideranças indígenas para usarem a palavra;
também fala na ocasião o administrador da FUNAI. Os mestres já começam a organizar
a "roda do Toré".
Após os discursos, os índios
se posicionam em três círculos: o menor, no centro, ficam os "tocadores"
de zabumba e de flauta e o que "puxa as cantiga"; no outro círculo, um
pouco maior, ficam as crianças e os adolescentes participando com a dança; e
no terceiro, o maior todos, os índios (homens e mulheres), vestidos ou não com
trajes do Toré, participam da dança cantando, dançando e tocando o maracá. O
"cacique geral" permanece entre os círculos, já os "caciques
das aldeias" ora ficam no terceiro círculo, ora acompanham o "cacique
geral", todos com maracás na mão, dançando e cantando.
Ao toque da flauta, inicia-se
o Toré, que enquanto "uma linha" é aberto com o canto que "chama os
caboclos e os dono da casa para as suas obrigações" e fechado com o canto
do Guarapirá na praia (cf. Maria Fogo que dança o Toré desde criança e o seu
pai era um dos mestres).
Quem não dança, assiste a
apresentação ou passeia no local, compra picolé, tapioca, cachorro quente posto
à venda por índios de outras aldeias.
Já passa das 14 horas quando
a "brincadeira" é suspensa. É o momento da partilha de comida e de bebida.
Enquanto isso, o carro de som passa a tocar músicas de forró, oportunidade para
as pessoas que não estavam dançando o Toré dançarem.
Após o almoço, os índios
retornam ao lugar da dança. A dança é reiniciada se prolongando até o cair da
tarde. Mesmo que nesta segunda etapa, as músicas sigam a seqüência própria do
Toré, no final os índios passam a tocar e dançar o coco-de-roda, momento no
qual todos os que ainda permanecem no ouricouri, independente de ter ou não
dançado o Toré, entram na "roda" e dançam.
No Toré, a partilha de carne
e de bebida revela a posição dos "caboclos do Sítio" enquanto anfitriões
e dos índios de outras aldeias como "convidados". Pensada de maneira mais ampla,
no Toré a relação entre os anfitriões ("caboclos do Sítio") e os "convidados"
(índios de outras aldeias), fica implícita na relação índios Potyguara como
os anfitriões e os não-índios (englobando os brancos e os "particulares")
enquanto "convidados". Desse modo, o etnônimo Potyguara deixa implícito as diferenciações
internas, especialmente aquelas que estão assentadas na oposição "índio puro"/"índio
misturado", "caboclos do Sítio"/"índios misturados" .
Os discursos e a existência
dos círculos, entre outros fatos, permitem concluir em primeiro lugar que o
"cacique geral" marca sua posição no Toré, e em segundo que este ritual
marca diferenças na posição entre diferentes famílias e diferentes aldeias,
assim com a dos outros caciques.
Em linhas gerais, os índios
representam uma aldeia ideal composta por ocas no meio do mato. Neste lugar
se reproduz a partilha comunitária de comida e de bebida com os índios de todas
as aldeias. As divisões ou as facções são dirimidas no momento do ritual.
Para concluir, é interessante
mencionar a devoção à São Miguel, visto pelos Potyguara como "dono das suas
terras". Esta festa é um evento incorporado pelo poder público ao calendário
turístico de Baía da Traição e é uma festa especial para os índios. Para estes,
festejar São Miguel, o seu padroeiro, significa reforçar os vínculos ao santo
através de ofertas ou dádivas; são nove noites de orações e cantigas na Vila
São Miguel e na aldeia São Francisco, momento no qual as dádivas são ofertadas
(retribuídas?) ao santo e destruídas simbolicamente[17].
As dádivas ofertadas são recolhidas por um noiteiro, que é o "cacique da
aldeia"; recolhe-se dinheiro para que sejam comprados fogos de artifícios
e balões. A cada noite uma aldeia tem por obrigação ofertar tais dádivas ao
santo.
Antigamente havia apenas
a festa de São Miguel na Vila de mesmo, só que na década de 80 os índios da
aldeia São Francisco levaram a imagem do santo para a igreja desta aldeia, a
justificativa foi que a igreja antiga estava caindo e que o santo não poderia
ficar exposto. Suponho que o fato de levarem o santo para a aldeia São Francisco
tem a ver com a demanda dos próprios índios de fortalecer o discurso de hegemonia
dos índios tidos como "os mais puros". De qualquer forma, mesmo havendo uma
divisão por parte dos noiteiros entre a festa da Vila e da aldeia São Francisco
o ciclo de obrigações recíprocas continua.
Nas festas católicas há uma
indiferenciação suscitada pelas obrigações em relação ao "noiteiro"
e ao padroeiro. Entretanto, a relação índio e branco, de um lado, homogeneiza
o grupo de pessoas identificado como indígenas. De outro, especifica os brancos
por meio da "inclusão" ou "atração" de um conjunto de pessoas classificados
como "particulares", cuja relação com o interno se caracteriza pela proximidade
espacial (mora no mesmo lugar, na mesma aldeia) e pela extensão, mesmo que parcial,
dos laços de parentesco e da lógica sob a qual tais laços se assentam.
Independente do padroeiro, em todas as aldeias festejam-se São João, São
Pedro (mês de junho), Senhora Santana (mês de julho) e "Nascimento" (Natal).
Como é típico da região Nordeste, as festas juninas são concebidas como referência
cultural das pessoas e são comemoradas com fogueiras, balões, fogos de artifício
e forró. As brincadeiras de junho acontecem, especialmente, em um pavilhão localizado
nas proximidades da Igreja. Este período é também marcado por outros tipos de
dança, a exemplo do coco de roda e de ciranda, os quais são realizados na casa
de farinha.
Da mesma forma que o forró (cf. Lanna, 1995), a dança do coco-de-roda pode
ser pensada como um rito de fertilidade e de união. O próprio espaço onde geralmente
dança-se o coco induz concebê-la como tal. A casa de farinha, como já mencionei,
é um espaço de trabalho e um ponto de encontro da família e de amigos; ao mesmo
tempo é o lugar onde se festeja a colheita.
A festa de Santana no mês de julho e a "festa de Nascimento" fazem
parte da agenda devocional dos índios. Segundo relatos de moradores da aldeia
Galego e do "Sítio", nos dias 26 e 27 de julho e 24 e 25 de
dezembro, as pessoas se mobilizam na casa de farinha seja para intensificar
a produção de derivados da mandioca, seja para brincar de coco-de-roda.
No mês de agosto festeja-se São Domingos na aldeia Jacaré de S. Domingos.
Em setembro realizam-se as festas de São Miguel na Vila de S. Miguel e na aldeia
São Francisco e de N. Sra. dos Milagres na Vila Monte-Mór. No mês de dezembro
homenageiam N. Sra. da Conceição as aldeias São Francisco, Jacaré de César e
Silva do Belém e Sta. Luzia em Camurupim.
As festas têm seu início com o convite do "cacique da aldeia"
dirigido aos moradores "do lugar". O convite se faz com a intenção de que as
pessoas dêem contribuições para o santo. As contribuições podem ser em dinheiro
ou em objetos tais como, velas, fogos e balões.
Em meio a este ciclo de festas religiosas, os índios se referem a duas delas
como sendo as mais importantes: a de setembro (dia 29) e a de dezembro (dia
8). São datas lembradas por todos como sendo os momentos de maior animação nas
aldeias. No dia 29 de setembro comemora-se a festa de São Miguel, reconhecido
como o "padroeiro dos Potyguara" (D. Tereza, reside no S. Francisco),
como "o dono do nosso território" (Sr. Antônio Silva, reside no Galego),
"o protetor e guarda dos índios" (D. Emília, reside na aldeia Forte).
Já no dia 8 de dezembro celebra-se a festa de N. Sra. da Conceição a padroeira
da aldeia São Francisco, Jacaré de César e Silva do Belém; para os moradores
do São Francisco esta é uma data especial porque "ao lado de São Miguel,
Nossa Senhora é também protetora dos índios Potyguara" (Sr. Antônio Ciríaco,
reside no S. Francisco), ela é "a padroeira dos caboclos do Sítio" (José
Barbosa, reside no Galego).
A festa de São Miguel é, segundo a memória do grupo, uma ocasião na qual
os índios festejam o seu protetor, fazendo parte da história do grupo. A idéia
de antigüidade justificaria o porquê da classificação da festa como tradicional.
Segundo a tradição do grupo, esta festa iniciou-se após a construção da Igreja
na Vila de São Miguel. A Vila passou a ser um lugar mais freqüentado pelos índios
no mês de setembro para a festa de São Miguel e no mês de novembro (dia de finados)
para a visita ao cemitério dos índios que se localiza do lado da referida Igreja.
Mas não é apenas porque são antigas que as festas de São Miguel e de N.
Sra. da Conceição se diferenciam das demais. Durante as nove noites de orações
e de encontro dos moradores da aldeia onde a festa é realizada, acontecem as
obrigações de outras aldeias para com o santo.
As obrigações acontecem do seguinte modo: cada noite de reza costuma ser
dedicada a uma aldeia diferente. A aldeia "bota a noite" e as orações
e cânticos são da responsabilidade dos índios da aldeia. Ou seja, todos os "caciques
das aldeias" têm por obrigação convidar os moradores da sua referida
localidade e arrecadar dinheiro para a aquisição de velas, balões e fogos de
artifício. Eles também devem levar um grupo de pessoas para coordenar os trabalhos
ou "tirar a novena".
Logo após a celebração da novena, na noite que antecede o dia do santo,
parte da população se reúne no pavilhão para o tradicional forró. No último
dia da festa do padroeiro, logo de manhã o pároco de Baía da Traição celebra
uma missa. Após a missa, as pessoas se juntam para participar dos batizados,
que são muito comuns nos momentos de festas do padroeiro. Quem teve algum parente
ou amigo batizado se dirige para a residência da família a fim de comemorar
este acontecimento.
As festas católicas Potyguara seguem as seguintes fases: em primeiro lugar,
o convite pelo "noiteiro" ou "cacique da aldeia"
para participação das pessoas nas novenas, a contribuição dos moradores da aldeia
com a noite da aldeia, as novenas (hasteamento da bandeira, orações, queima
de velas), a queima de fogos, velas e balões pelo "noiteiro",
o baile na véspera do dia do santo e finalmente a missa da festa seguida das
cerimônias do batismo e do matrimônio.
Considerações finais
O modo como o grupo indígena Potyguara classifica
a alteridade e a maneira como o turismo é lido e incorporado simbolicamente
na vida do grupo não apenas nos coloca na posição de refletir sempre o contato
a partir da perspectiva nativa, o que por conseguinte nos remete também para
a reflexão dos eventos decorrentes do próprio contato. Neste sentido, analisar
o turismo e os seus impactos significa entender como o grupo se insere simbólica
e culturalmente.
Como vimos, é possível pensarmos o turismo na Baía
da Traição como um empreendimento dos Potyguara, na medida em que promove inovações,
seja no nível da própria percepção cosmológica do contato com o "outro",
seja no nível da configuração de práticas sociais que tendem a revelar a própria
perspectiva nativa de pensar a si-mesmo e o "outro"; práticas essas que caracterizam
o que Lévi-Strauss (1952) chama de "distanciamentos significativos".
Segundo Lévi-Strauss, no
contato entre culturas, forças contrárias podem atuar, gerando diferenciação
e homogeneização. A homogeneização seria uma aproximação, mas acompanhada de
"afastamentos diferenciais". Estes afastamentos poderiam acontecer através do
surgimento de desigualdades sociais e econômicas internas a cada grupo.
Entretanto, ele lembra a possibilidade de haver forças
ainda mais importantes do que a homogeneização, contrapondo-se a ela, na medida
em que as diferenças podem surgir não só internamente mas também "nas relações
recíprocas entre as culturas". Sendo assim, a diversidade não é estática e que
a diferença surge menos do isolamento dos grupos do que das relações que os
unem.
É realmente o que ocorre
quando percebemos uma articulando do artesanato, do Toré e da festa de S. Miguel
como marcas distintivas dos Potyguara. Isso nos remete para uma constante busca
pela legitimação de distintividade do grupo face a sociedade envolvente.
No caso especial das festas, podemos nos aproximar da definição de ritual
dado por Teixeira-Pinto (1996:378), para falar de algo que transcende o mecanicismo
proposto pelo marketing do turismo. "(...) tomando o conjunto das etapas de
um rito como um sistema de funções semióticas irradiadas por suas várias grandezas",
as festas traduzem as referidas funções nos planos de expressão e de conteúdo.
As ações rituais das festas católicas expressam a simbólica das dádivas
entre os moradores da aldeias (índio ou não índio) e o "noiteiro", e
entre este e o santo festejado. Indiretamente, as obrigações das festas traduzem
a representação da "política" caracterizada pelas formas de dar e receber e
pela articulação dos laços de parentesco; em última instância, a "política"
é definida pela ideologia da pureza e da mistura de sangue.
As festas, portanto, se colocam como o momento peculiar em que o grupo se
pensa como uma unidade, por meio das obrigações em relação ao santo e da investidura
do "cacique da aldeia", também sob a lógica da dádiva. A configuração
de uma "unidade" na festa se objetiva na não projeção de divisões internas;
independente de ser ou não índio, todos os moradores das aldeias participam
da festa seja por contribuições, seja nas novenas e nos bailes.
Vale salientar que nas festas a participação de pessoas "de fora" é mais
intensa, principalmente quando consideramos que o encontro de jovens nos bailes
permite laços matrimoniais. Como já mencionei, parte considerável dos "particulares"
que se uniram matrimonialmente com índios(as) conheceu o seu cônjuge nas festas
de padroeiro de S. Miguel e de N. Sra. da Conceição.
As festas religiosas exprimem, de um lado, uma indiferenciação interna,
apesar da posição de "noiteiro" envolver relações diferenciadas
entre grupos. Do outro lado, elas expressam a percepção nativa de relacionamento
com o seu exterior, que no caso das festas, abrangem as divindades ou os santos
católicos. Como sugere Viveiros de Castro (1986:362;364), o fato das diferenças
não serem expressas cerimonialmente não significa a sua inexistência. As diferenças
são expressas, então, no próprio modo como o grupo define as posições do sujeito,
considerando os laços de parentesco e o vínculo à um grupo local específico.
Regra geral, os "caciques das aldeias" são os animadores
das festas religiosas e são os mestres do Toré. A posição de mestre confere
ao líder uma projeção importante, principalmente quando concebemos o Toré como
um ritual "para fora" do grupo. Deste ponto de vista e a exemplo das festas,
o Toré também não revela explicitamente as diferenças internas.
Todavia, a distribuição de papéis no ritual nos levar a refletir sobre os
conteúdos expressos, especialmente aqueles que se referem às idéias de "caboclos
do Sítio", "caboclo legítimo", "índio puro" e "índio civilizado
ou misturado", e a relação destas com as diferenças internas suscitadas,
mesmo que implicitamente, no ritual.
Não dá para pensar, então,
em um processo global sem levar em conta o modo como as alteridades lêem tal
processo e definem como entrar nele, uma vez que eles se inserem nos fluxos
globais com a intenção de manter e expandir o acesso as inovações técnicas,
bem como promover a própria organização desta cultura global por meio de uma
perspectiva simbólica específica. Observa-se na atualidade que a cultura global
é marcada sobremaneira muito mais por uma organização da diversidade do que
pela hegemonia da uniformidade.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. 1986. Araweté:
os deuses canibais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
[1] Antropólogo e Professor do Departamento de Ciências
Sociais, UERN, Mossoró (RN), Brasil.
[2] Na compreensão nativa revela a fruta predominante
na região, o caju, com a especificidade de ser azedo.
[3] Baía da Traição é a denominação tanto de um dos
municípios do Estado da Paraíba, como da cidade que se situa sua sede, localizada
em terras tradicionalmente habitadas pelos Potyguara.
[4] Distante 77 km de João Pessoa, a viagem que durava
em média duas horas e trinta minutos hoje está sendo feita em aproximadamente
uma hora e meia.
[5] Utilizarei o nome Potyguara com essa grafia e não
como se costuma mencionar Potiguara, em razão de que o grupo está demandando
o resgate da língua dos antepassados e o reconhecimento do seu tronco lingüístico
Tupi-Guarani. Já as falas e expressões correntes dos nativos serão destacadas
por aspas duplas e por itálico; os nomes citados são fictícios para preservar
a identidade do falante.
[6] Para
maiores esclarecimentos consultar Moonen, 1986.
[7] Na Paraíba foram também criados os aldeamentos de
Jacoca e Utinga (Potiguara), Boa Vista (Kanindé), Cariris (Cariri), Campina
Grande, Brejo, Panaty, Coremas, Pegas e Icó todos constituídos por índios Tapuia.
[8] Diz o relator: "Demorei, sobretudo
entre os de São Francisco, onde passei algumas horas; por me parecer originalíssima,
além de interessante (...) São claros, robustos e bem conformados os descendentes
dos Potiguaras. Seus traços são regulares, assim no rosto como no corpo, dando
ao conjunto da população um grau de formosura superior ao que se encontra comumente
nos sertões (...) Entram no mangue inteiramente nus e ficam tão negros de lama
que na posição apropriada parecem, ao longe, porcos. Eles dançam e cantam como
índios. Usam instrumentos de música, mas instrumentos indígenas (...) Com essa
música elementaríssima folgam noites inteiras, dando a quem os contempla, a
impressão de um rito bárbaro em plena selva". (Moonen, 1992:183 - Grifo meu).
[9] Com exceção das aldeias Bento, Silva da Estrada,
Tracoeira, Santa Rita e Cumaru.
[10] Aldeias como Santa Rita, Tapuio, Bemfica, Nova
Esperança, Carneira e Grupiúna não possuem escolas, as crianças estudam na aldeia
mais próxima.
[11] Categoria nativa utilizada para se referir a quem
é 'de fora' mas que reside na aldeia.
[12] A diferença daquilo que é encontrado próximo das
estradas ou em terrenos que ninguém trabalha, daquilo foi plantado em um "sítio"
e um roçado particular, reside no fato de que apenas as benfeitorias existentes
no "sítio" e nos "roçados" são transmitidas por meio de herança, doação e venda.
[13]
Para maiores informações consultar Vieira (2001a, 2001b).
[14] Os índios tem uma precisão clara do território
habitado pelos antepassados; falam que os Potyguara habitavam todo o litoral
do Nordeste brasileiro, numa extensão que abrange o norte do atual Estado de
Pernambuco, passando pelas faixas litorâneas da Paraíba, Rio Grande do Norte,
Ceará, Piauí até o Maranhão.
[15] No Tratado Descriptivo do Brasil, Soares de Sousa
(1938: 52) conta que: "Chama-se esta baía pelo gentio potiguar Akajutibiró,
e os portugueses, da Traição, por com ela matarem uns poucos castelhanos e portugueses
que nesta costa se perderam".
[16] Ao contrapor o passado da pureza e o presente
da mistura, os Potyguara criam uma aproximação e um afastamento não só em relação
aos seus antepassados, mas com o seu "exterior", especificamente em relação
aos índios da Amazônia, sob o argumento de que eles são os "verdadeiros" índios;
são puros porque não há mistura nas aldeias, cujo contato com o branco é controlado
pelo órgão tutor.
[17] A destruição das ofertas se refere a queima de
fogos e velas, antes, durante e após a novena.
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