ARQUEOLOGIA PÚBLICA, UNIVERSIDADE PÚBLICA E CIDADANIA
Jorge Eremites de Oliveira[1]
Resumo: Este artigo discute a prática da Arqueologia pública
no âmbito da universidade pública brasileira, desenvolvida com vistas
a contribuir para a construção de uma cidadania popular, na qual
as pessoas possam atuar como agentes históricos plenos.
Abstract: This article discusses the practice of the public
Archeology in the extent of the Brazilian public university, developed
with views to contribute for the construction of a popular citizenship,
in the which the people can act as full historical agents.
Palavras-chave: Arqueologia, Universidade, Cidadania.
Key words: Archaeology, University, Citizenship.
Por que devemos tentar atingir o público? Por que não nos
contentamos em ser um grupo minoritário e atrair uma pequena elite,
que apreciará totalmente nossos métodos e nossas sutis abordagens
em relação ao passado?
Precisamos realmente de um público informado; não podemos nos
dar o luxo de ficar isolados. A arqueologia necessita da compreensão
e da colaboração do fazendeiro, do garimpeiro e do mateiro. Um público
interessado e informado não destruirá seu próprio passado (nossa
matéria-prima) (Philip Rahtz, 1989:165).
Desde a década de 1980, com o fim do regime militar
(1964-1985) e o início oficial do processo de redemocratização do
Brasil, a Arqueologia feita no país vem dando cada vez mais demonstrações
de estar conquistando um outro momento, o momento atual, marcado
por uma série de transformações epistemológicas, verdadeiras mudanças
de nuances como Walter A. Neves (1988) havia proposto durante a
V Reunião Científica da Sociedade de Arqueologia Brasileira,
realizada na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, em 1989. Muitas
dessas transformações passaram a acontecer com o surgimento de uma
nova geração de arqueólogos pós-graduados nas duas últimas décadas
do século XX, via de regra sob influência de muitos dos mais recentes
avanços registrados na Arqueologia mundial, especialmente o Processualismo
e o Pós-processualismo.
As análises de Betty Jane Meggers (1985), Walter A.
Neves (1988), Pedro Ignacio Schmitz (1994), Pedro Paulo A. Funari
(1989, 1992, 1994a, 1994b, 1998, 1999, 1999/2000, 2000), Cristina
Barreto (1998, 1999, 1999/2000) e Tania A. Lima (2000), dentre outros
autores, apontam, ainda que sob diferentes pontos de vista em certos
aspectos, para essa situação de transição, oxalá rumo a uma Arqueologia
Brasileira mais crítica, reflexiva, heterogênea, holística, plural
e dedutiva, mais engajada do ponto de vista social e melhor preparada
em termos teórico-metodológicos. Essas mudanças, ainda em curso
e de difícil avaliação no calor dos acontecimentos, têm aproximado
cada vez mais os arqueólogos de outros cientistas sociais e estimulado
o surgimento de um ambiente mais aberto a profícuos debates sobre
a Arqueologia e seus campos interdisciplinares, dentre outras temáticas.
Além disso, essa nova geração de arqueólogos, da qual também fazem
parte os chamados e assim auto-denominados jovens arqueólogos,
embora sendo heterogênea em sua totalidade, vem derrubando muitas
das barreiras impostas pela geração anterior, sobretudo no que diz
respeito à relação entre arqueólogos e o público em geral. Sua produção
científica gradativamente está rompendo com velhos paradigmas e
lançando novas luzes e perspectivas sobre a Arqueologia Brasileira.
Talvez o exemplo mais recente tenha sido a publicação do dossiê
Antes de Cabral: Arqueologia Brasileira, organizado por Walter
A. Neves (1999/2000) e publicado na Revista USP, um dos mais
respeitados periódicos nacionais.
O caráter epistemológico das ações dessa nova geração
está, ao meu ver, em ter consciência de que a Arqueologia, assim
como qualquer outra ciência criada pelo homem, não é, nunca foi
e jamais será neutra, pois o arqueólogo enquanto cidadão da pólis
está inserido em um contexto econômico e político-social que
marca a vida em sociedade (Funari, 1988; Trigger, 1989, 1990). Esta
constatação pode parecer óbvia para outros cientistas sociais, mas
acontece que na Arqueologia Brasileira, especialmente em algumas
instituições de pesquisa, durante anos predominou um certo discurso
de neutralidade científica, também recorrido com vistas a defender
a tese de que o papel do arqueólogo era produzir novos conhecimentos,
sem contudo ter algum tipo de engajamento político e social. Um
pensamento assim por certo não pode ser historicamente descontextualizado
de seu tempo, haja vista que teve maior ressonância na época do
regime militar (1964-1985), período em que não raramente os opositores
da ordem vigente foram perseguidos, presos, torturados e até assassinados.
Em meio a essas mudanças, a discussão em torno da
Arqueologia pública, compreendida como uma Arqueologia aberta para
o público e que aspira, para mais ou para menos, um engajamento
social por parte dos arqueólogos, torna-se oportuna e necessária
para um (re)pensar permanente sobre os rumos da Arqueologia Brasileira.
No caso da Arqueologia pública praticada na universidade pública,
uma reflexão crítica traz à tona, pois, não somente diferentes concepções
sobre o papel da universidade pública e gratuita brasileira, mas
também diferentes práticas de engajamento social em contextos regionais
particulares, cujo debate é bastante oportuno neste início de milênio,
mais um momento de crise para as instituições federais e estaduais
de ensino superior.
Assim, o presente artigo tem por finalidade apresentar
algumas reflexões e relatos sobre a prática da Arqueologia pública
no contexto da universidade pública brasileira, também tratando
de questões pontuais de interesse ao debate sobre as relações existentes
entre arqueólogos e o público em geral, incluindo populações indígenas,
bem como sua práxis educacional no ensino superior e a questão da
preservação de bens culturais.
DIFERENTES VISÕES SOBRE A UNIVERSIDADE PÚBLICA
De início, uma primeira questão vem à tona e merece
ser respondida de pronto: qual a universidade pública que queremos?
Atualmente, duas concepções estão sendo debatidas no Brasil: a oficial,
defendida pelo atual governo federal e seus pensadores; e a alternativa,
defendida pelo movimento docente e seus teóricos. Um dos maiores
debates sobre o assunto ocorreu durante o lançamento público do
IV Congresso da USP, ocorrido em setembro de 2000, protagonizado
por Bresser Pereira e Marilena Chauí.
A primeira concepção é a de universidade produtivista,
concebida nos moldes das organizações sociais propostas
pelo ex-ministro Bresser Pereira (2000), um dos principais pensadores
da reforma do Estado implantada pelo governo federal desde 1995,
início do primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso
(FHC). A proposta de Bresser baseia-se mais ou menos nos modelos
estadunidense e britânico de universidade e está fundamentado em
três idéias centrais: 1) competitividade no nível nacional e internacional;
2) autonomia administrativa e financeira; 3) financiamento feito
pelo Estado, através de recursos adequados, porém de acordo com
a qualidade de trabalho que realiza as instituições (produção).
Seu modelo, entretanto, não prevê a gratuidade do ensino superior
e não implica, necessariamente, na defesa da manutenção das universidades
federais, por exemplo. Na concepção do ex-ministro do governo FHC,
a universidade produtivista deve ser crítica na produção
e no ensino de novos conhecimentos, devendo existir em função do
interesse público, o qual não necessariamente deve ser compreendido
como estatal.
Na verdade, as organizações sociais propostas
pelo governo federal são instituições prestadoras de serviços que
celebram contratos de gestão com o Estado. Seu pressuposto
ideológico está diretamente associado à tese de que o mercado é
portador de uma racionalidade sócio-política e que, portanto, é
o principal agente provedor do bem-estar social da república. Em
outras palavras, uma universidade concebida como organização
social é uma universidade operacional, posicionada
no setor de prestação de serviços e que possui, em síntese, uma
autonomia reduzida à gestão de receitas (Chauí, 1999). Este é modelo
de universidade que o Ministério da Educação (MEC) defende no governo
FHC.
O modelo de universidade operacional, por sua
vez, tem beneficiado o crescimento da Arqueologia por contrato no
Brasil, principalmente através de contratos firmados entre as fundações
existentes nas universidades federais e estaduais e os mais variados
tipos de clientes, seja o próprio Estado, seja o setor privado.
Isso significa que as universidades públicas brasileiras estão sendo
cada vez mais influenciadas pelas leis de mercado, isto é, pelo
capital. Particularmente, não sou contra o crescimento da Arqueologia
por contrato nas universidades públicas, mas não a vejo como um
fim, senão como um meio, uma estratégia para captar recursos a serem
investidos no desenvolvimento de pesquisas de resolução de problemas
e atividades de ensino e extensão, as quais visem a preservação
de bens culturais e a produção de novos conhecimentos, dentre outras
ações ligadas ao exercício da profissão de arqueólogo. Não se pode
negar, por exemplo, a contribuição que a Arqueologia por contrato
vem dando em termos teórico-metodológicos e na produção de novos
conhecimentos, bem como para a preservação de bens culturais, conforme
está bastante claro nas análises publicadas em Caldarelli (1997)
e feitas por Caldarelli (1999) e Caldarelli & Santos (1999/2000).
Porém, é correto a afirmativa de com ela surgiram e vêm surgindo
novos dilemas éticos a serem enfrentados pela comunidade de arqueólogos
que atuam no país, questão esta que tem preocupado a própria Sociedade
de Arqueologia Brasileira (SAB), entidade que participou, juntamente
com o Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia (IGPA), órgão
pertencente à Universidade Católica de Goiás (UCG), da organização
do simpósio A Arqueologia no Meio Empresarial, ocorrido de
28 a 31/8/2000, em Goiânia, um importante evento que tratou especialmente
da realidade da Arqueologia por contrato no país.
A segunda concepção, por seu turno, é a de universidade
crítica, defendida pelo movimento docente das universidades
públicas do país, federais e estaduais, que tem na filósofa Marilena
Chauí (1999, 2000) uma de suas mais renomadas teóricas. A idéia
de universidade crítica pressupõe uma universidade livre
das imposições ditadas pelas leis de mercado, com autonomia do saber,
que saiba compreender, explicar e interpretar o mercado e o processo
de articulação interna entre todas as instituições sociais existentes
na sociedade capitalista. Além disso, uma universidade crítica
é aquela que sabe resistir às imposições do mercado, à lógica do
capital, combatendo-o no âmbito da teoria e da prática e reiterando
a tese de que a educação pública e gratuita, em todos os níveis
(fundamental, médio e superior), é um direito historicamente conquistado
pelos cidadãos brasileiros. Nessa visão, a universidade pública
deve ter autonomia de conhecimento, administrativa e financeira,
sem o fetichismo da lei, da burocracia estatal, compreendida como
uma forma de exercício do poder, anti-democrática por excelência,
que opera com a hierarquia (e não com a igualdade), com o segredo
(e não com o direito, a produção, recepção e veiculação de informações)
e com a rotina (e não com a criação pelo trabalho dos conflitos)
(Chauí, 2000).
Ainda de acordo com as idéias defendidas pela filósofa,
uma universidade crítica deve ser, portanto, democrática
e estar baseada na valorização da docência e na autonomia universitária,
algo que para Chauí não pode ser avaliado unicamente pela quantificação
da produção: em quantos congressos esteve; quantos artigos e livros
publicou; em quantas notas de rodapé foi citado; quantas aulas ministrou
na graduação e na pós-graduação; etc. Produção científica, aliás,
é algo que não falta ao conjunto das universidades públicas do país
como recentemente demonstrou Bosi (2000).
ARQUEOLOGIA
PÚBLICA, UNIVERSIDADE PÚBLICA E CIDADANIA
Diante do sucinto quadro apresentado,
como fica a Arqueologia pública no contexto de universidade pública
brasileira? Acredito que a premissa básica é conceber a Arqueologia
pública como uma ferramenta de luta pela conquista da cidadania.
Aí, então, surge um outro questionamento não menos importante: qual
a cidadania que queremos? Defendo a tese da conquista de uma cidadania
entendida como competência humana de fazer-se sujeito, para
fazer história própria e coletivamente organizada, tal qual
definiu o sociólogo Pedro Demo (1995:1). Uma cidadania assim não
pode ser limitada à noção inicial de cidadania surgida em Roma antiga,
baseada no Status Civitatis, ou limitada à idéia de cidadania
como uma concessão dada pelo Estado de direito, assim concebida
desde a Revolução Francesa. Neste último caso, o cidadão matou a
pessoa quando subordinou os direitos de cidadania a concessões legais,
reservando-a a uma classe de privilegiados (Dallari, 1997). Ou nas
palavras de Vilmar Schneider (1997:19): Em tese, o Estado
de direito fundado no ideal democrático, em valores de liberdade,
participação e igualdade, busca regular, por meio de regras e instituições
constituídas, o contraditório processo de disputas políticas existentes
no seio da sociedade. Portanto, a cidadania individual e coletiva
é, com efeito, uma conquista e não uma doação do Estado de direito
no capitalismo, especialmente em sua fase neoliberal (Demo, 1997).
Um típico exemplo disso é a luta dos trabalhadores rurais sem-terra
pela reforma agrária no país.
No caso brasileiro, os caminhos da
cidadania apontada por Demo (1995), concebida como uma cidadania
popular, estruturada no princípio do progresso democrático e no
fim das desigualdades sociais, são bastante tortuosos, haja vista
que envolvem componentes cruciais como educação, organização política,
identidade cultural, informação, comunicação e, acima de tudo, o
processo emancipatório das pessoas e dos povos, fundado na capacidade
crítica de intervir na realidade de modo alternativo. Isso porque,
vale a pena salientar, temos um passado comprometido com a pobreza
política, a ignorância acerca da condição de massa de manobra, também
resultado dos muitos momentos de autoritarismo edificados na ruína
dos direitos humanos (Demo, 1995; Chueiri, 1997).
Portanto, uma Arqueologia pública desenvolvida no
contexto de universidade pública brasileira, que tenha como objetivo
a conquista da cidadania popular, está mais distante do modelo oficial
de universidade produtivista ou operacional e mais
próxima da proposta alternativa de universidade crítica,
embora em ambos os casos deve continuar sendo produtiva.
Deve ela, por esse compromisso assumido, romper com a estrutura
de compadrio, paroquialismo e confrarismo que ainda marca a disputa
pelo poder e pelo micropoder no interior das universidades, também
reflexo do processo histórico e cultural de formação da sociedade
brasileira. Uma das medidas tomadas pelo governo federal no sentido
de manter tal estrutura arcaica é a nomeação de reitores nas universidades
federais, não raramente feita em desrespeito à vontade da maioria
da comunidade universitária. Além disso, deve ela ainda primar pelo
debate com a sociedade organizada e com os governos sobre os mais
variados assuntos de interesse à Arqueologia Brasileira: preservação
de bens culturais, ensino da temática da pré-história brasileira
em todos os níveis, direito dos povos indígenas, preservação e uso
sustentável dos recursos naturais e muitos outros.
ALGUMAS EXPERIÊNCIAS EM MATO GROSSO DO SUL
No contexto da realidade sul-mato-grossense,
ações ligadas a Arqueologia pública tiveram começo na década de
1980, com o desenvolvimento do Programa Arqueológico do Mato
Grosso do Sul, projeto de pesquisas idealizado e coordenado
por Pedro Ignacio Schmitz, inicialmente planejado para ser desenvolvido
de modo semelhante ao PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas)
e ao Programa Arqueológico de Goiás. No âmbito do referido
programa, desde seu início em 1985, com o Projeto Alto Sucuriú,
até sua interrupção em 1997 e sua retomada em 2001, com o Projeto
Corumbá, alguns cursos e palestras foram ministrados sobre Arqueologia,
especialmente tratando do passado pré-histórico de povos indígenas
que povoaram o atual território nacional e outras regiões do continente
americano. Nessas ocasiões, dezenas de pessoas tiveram contato,
pela primeira vez até então, com a disciplina Arqueologia, com a
profissão de arqueólogo e com uma leitura científica sobre a pré-história
brasileira. Via de regra, ações desse nível, abertas à comunidade
universitária (alunos, docentes e corpo técnico-administrativo)
e à comunidade local (estudantes, professores do ensino médio e
fundamental, pesquisadores de outras instituições e demais interessados),
em muito têm contribuído para a formação de uma conscientização
sobre a importância da preservação de bens arqueólogos e sobre o
passado dos povos indígenas no Brasil e em outros países da América.
De todo modo, a construção de uma cidadania popular não foi o objetivo
que motivou a realização desses cursos e palestras, geralmente realizados
nos meses de julho, época dos trabalhos de campo. Em Corumbá, por
exemplo, o próprio Schmitz disse publicamente que um dos propósitos
daquelas ações era contribuir para a construção de uma identidade
própria para a população local. Seu argumento pouco feliz e anti-relativista
do ponto de vista da alteridade, foi de público justificado pelo
fato do arqueólogo ter deduzido que a população corumbaense ainda
não tinha construído uma identidade própria para si mesma, tal qual
haviam feito gaúchos e catarinenses, fala esta que causou indignação
e constrangimento para muitas pessoas presentes nas atividades,
incluindo dezenas de historiadores. Em momentos assim, nota-se que
ações ligadas à Arqueologia pública pressupõem um certo conhecimento
do complexo universo multidimensional e heterogêneo que é o público,
seja ele qual for.
Hoje em dia, em Mato Grosso do Sul há cinco profissionais
de Arqueologia atuando em instituições de ensino superior: três
na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), dois como
professores efetivos e um como pesquisador-colaborador; uma na UEMS
(Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul); outra UCDB (Universidade
Católica Dom Bosco). Embora com um número reduzido de arqueólogos,
atividades ligadas à Arqueologia pública vêm sendo realizadas por
esses profissionais, sobretudo a partir da década de 1990, através
de exposições científicas de material oriundo de pesquisas realizadas
na modalidade de Arqueologia por contrato, pesquisas exploratórias
e pesquisas de resolução de problemas. Cursos e palestras igualmente
vêm sendo ministrados ao público universitário e às comunidades
locais. De uma maneira geral, o eixo das atividades vem sendo a
divulgação de resultados das pesquisas realizadas ou em andamento
sobre a pré-história regional e o desenvolvimento de ações que possam
contribuir para a preservação de recursos naturais e culturais,
proposta que grosso modo em muito se assemelha à do Programa
Arqueológico do Mato Grosso do Sul.
No sul do Estado, especialmente em
Dourados e Mundo Novo, um engajamento social da disciplina tem sido
feito através de parcerias pontuais entre profissionais da UFMS,
UEMS e de outras instituições públicas, além de setores da sociedade
organizada como ONGs (Organizações Não-Governamentais) e sindicatos
de trabalhadores em educação. Três frentes de ações vêm sendo privilegiadas:
preservação de bens arqueológicos, conhecimento da pré-história
brasileira e defesa dos direitos dos povos indígenas. Exemplo disso
foi o curso Patrimônio arqueológico de Mato Grosso do Sul: conhecer,
compreender e preservar, com 80 horas de aulas teóricas e de
campo realizadas em Dourados, Corumbá e Ladário e ministradas por
profissionais da UFMS e da UEMS. O curso foi oferecido à comunidade
universitária do Campus de Dourados da UFMS e a professores da rede
de ensino fundamental e médio da região da chamada Grande Dourados,
entre outubro e novembro de 1998, contando com mais de 80 participantes,
a maioria composta por alunos do curso de História da UFMS.
No que diz respeito à Grande Dourados,
uma pequena digressão merece ser feita. Trata-se de uma região que
ainda hoje em dia está densamente povoada por povos indígenas, principalmente
por povos lingüisticamente Guarani. Somente no município de Dourados,
por exemplo, há cerca de 10.000 índios, representantes dos povos
Kaiowá, Guarani (ou Ñandeva) e Terena, cuja história mais recente
está diretamente relacionada à implantação, na década de 1940, época
do governo Vargas, da Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND),
uma das primeiras experiências de reforma agrária implementada no
Brasil, a qual aconteceu sobre antigos territórios indígenas. Dourados,
aliás, tem a maior área indígena urbana do país (aldeias Jaguapirú,
Bororó e Panambizinho) e o contato entre índios e não-índios ocorre
diariamente por praticamente toda a cidade (CIMI-MS et al., 2001).
Na região, cursos e palestras também
têm sido ministrados sobre a pré-história regional, quer para o
público universitário, quer para alunos e professores da rede de
ensino fundamental e médio. Nessas atividades, a pré-história tem
sido tratada como parte de uma história indígena total e contínua,
como uma Arqueologia do índio americano, perspectiva também assumida
por Sanders & Marino (1971), Meggers (1979) e Fiedel (1996),
dentre outros arqueólogos que escreveram sínteses sobre a pré-história
do Novo Mundo. Em atividades educacionais desse tipo, o debate sobre
a questão indígena atual sempre tem sido levantado pelo público.
De todo modo, longe de cair em um discurso indigenista ingênuo,
os povos indígenas têm sido apontados como agentes históricos, pessoas
que também constroem seu destino e que, portanto, também merecem
ter seus direitos respeitados, dentre eles o direito a seus antigos
territórios, locais onde ainda hoje estão sendo encontrados tekohás
abandonados há menos de um século.
Paralelamente, a publicação de artigos
em jornais de circulação regional e na internet (www.naya.org.ar e www.riosvivos.org.br), bem como a elaboração
de material didático distribuído por toda a rede pública estadual
de ensino fundamental e médio de Mato Grosso do Sul (J. Oliveira,
2000g), vêm lançando luzes sobre a história mais antiga de um Estado
que também busca nas culturas indígenas elementos para a construção
permanente de sua identidade. Digo isso pelo fato de haver em Mato
Grosso do Sul, principalmente em Campo Grande, um movimento de (re)construção
da identidade sul-mato-grossense através de leituras particulares
sobre a história e a arte dos povos indígenas, especialmente dos
antigos Mbayá-Guaicuru, dos quais os Kadiwéu de hoje são seus maiores
representantes no território brasileiro.
Além disso, os debates em torno do
ensino da temática da pré-história brasileira, americana e geral
nos níveis fundamental, médio e superior têm alcançando resultados
positivos, inclusive na crítica a livros didáticos de História e
na discussão sobre a importância da Arqueologia na formação de futuros
professores de História e historiadores no Campus de Dourados da
UFMS (Lima & Silva, 1999; Quast, 2000). Prova disso está na
recente linha de pesquisa, denominada História Indígena,
inaugura no Programa de Pós-graduação em História da UFMS, iniciado
em 1999 (Oliveira, 2001d).
Discussões com a sociedade organizada
sobre a preservação e o uso de bens arqueológicos, como a Usina
Velha (J. Oliveira, 1999b, 1999c), também têm despertado a atenção
do poder público, parlamentares, militantes do movimento cultural,
dentre outros atores diretamente envolvidos no processo histórico
regional. No caso, trata-se de uma antiga usina termelétrica que
deverá sofrer ações de preservação, quiçá para fins de atividades
ligadas à educação patrimonial e contemplação.
Com base nas reflexões de Funari (2000), percebe-se
que a publicação de matérias e artigos na imprensa nacional, versando
sobre temáticas de interesse à Arqueologia Brasileira, vem crescendo
anualmente em uma proporção de favorecimento à vulgarização de antigos
e novos conhecimentos produzidos por arqueólogos. No caso das pesquisas
etnoarqueológicas, etnoistóricas e arqueológicas sobre o povo Guató
(J. Oliveira, 1996a, 1998, 2000d, 2000e, 2000f, 2001b, 2001c), a
repercussão tem sido grande entre não-arqueólogos e, de certa forma,
contribuído para a redescoberta desse povo canoeiro
que até pouco tempo era tido como extinto (Barros, 1999; M. Oliveira,
2000; Bini, 2001; Mageste, 2001). Um pouco mais que isso: a história
e a cultura Guató acabaram sendo objeto de uma película, um filme
de longa metragem intitulado 500 Almas, sob a direção do
cineasta Joel Pizzini Filho, inicialmente planejado para ser exibido
no ano de 2001 em cinemas do país e na TV Cultura, mas que deverá
ser concluído em 2002. Os resultados alcançados são bastante positivos,
inclusive do ponto de vista da preservação de bens arqueológicos
existentes em antigos territórios Guató, a exemplo do recente levantamento
arqueológico concluído por Migliacio (2000) na área indígena Baía
dos Guató, em Mato Grosso.
Mais recentemente, a partir de 2001, foi iniciado
um prévio levantamento de antigos tekohás do povo Kaiowá
da aldeia Panambizinho, localizada no distrito de Panambi, em Dourados,
pesquisa esta vem sendo feita a partir do uso de informações orais,
sendo parte de um projeto multidisciplinar desenvolvido através
de uma parceria firmada entre UFMS, UEMS e EMBRAPA, denominado Avaliação
ambiental estratégica para o gás natural. As pesquisas têm sido
útil, por exemplo, para compreender o processo de deslocamento territorial
e perda de grande parte do território Kaiowá a partir da implantação
da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, bem como para que os próprios
índios passem a dar mais atenção para seus antigos tekohás,
alguns dos quais em áreas de conflito e litígio com não-índios,
inclusive informando sobre eles aos mais jovens.
Em suma, as experiências até então acumuladas no âmbito
da Arqueologia pública desenvolvida na UFMS, especialmente no Campus
de Dourados, têm sido voltadas sobretudo para a atuação do arqueólogo
enquanto cientista e educador (Bender & Smith, 2000), cujo processo
de engajamento social presume a construção de uma cidadania popular,
coletiva, que necessariamente passa por reflexões a serem realizadas,
também, para além fronteiras da academia e em defesa de uma universidade
pública, gratuita e socialmente referenciada.
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